António Baio Dias, presidente do Cluster Habitat Sustentável: “A construção em Portugal está ainda na fase do fato por medida e falta dar o passo para o pronto-a-vestir”

28/10/2026
António Baio Dias, presidente do Cluster Habitat Sustentável: “A construção em Portugal está ainda na fase do fato por medida e falta dar o passo para o pronto-a-vestir”

Como pode a sustentabilidade criar valor para as empresas, os promotores e os utilizadores dos edifícios?

A sustentabilidade é cada vez mais procurada pelos consumidores, principalmente os mais esclarecidos. Há produtores nacionais que só conseguem colocar os seus produtos em determinados mercados se apresentarem documentação que evidencie, de forma objetiva e independente, indicadores relacionados com a sustentabilidade, como as Declarações Ambientais de Produto ou a Pegada Carbónica.

As certificações classificam os edifícios em diferentes níveis. Assim é importante para os utilizadores saber se o edifício é eficiente em termos energéticos, se os materiais não resultaram em danos para o ambiente e se não prejudica a saúde dos seus ocupantes.

Para os promotores, um edifício com certificação de nível superior tem também um valor económico superior.

Que mudanças são necessárias na certificação energética para responder às novas exigências ambientais?

No futuro, além das características de desempenho energéticas, será também necessário evidenciar as características ambientais dos produtos. A Diretiva Europeia 2024/1275 EPBD determina que as novas construções devem ter necessidades de energia extremamente baixas e cobertas por fontes renováveis. Também considera o Potencial de Aquecimento Global ao longo do ciclo de vida, o que obriga a contabilizar e a reduzir o carbono gerado desde a extração dos materiais até à demolição. Assim os materiais aplicados deverão evidenciar informação do teor de carbono incorporado.

Como pode a construção reduzir o consumo de matérias-primas, os resíduos e o desperdício?

A fase de projeto é determinante. Podem ser usadas técnicas de produção mais industrializadas que permitem reduzir a utilização de recursos. A produção em fábrica é sempre mais otimizada do que a produção em obra. A pré-fabricação é uma etapa que permite a redução de desperdícios e resíduos. A robotização permite automatizar processos e reduzir desperdícios. Outra técnica é a fabricação 3D, em que a construção é feita por injeção de betão sem a utilização de moldes e com menos desperdícios.

Que condições são necessárias para que os produtos e as soluções sustentáveis passem a ter uma presença generalizada no mercado?

Ambos são vistos como soluções diferenciadoras na construção porque a sustentabilidade está a dar os primeiros passos. Um edifício mais sustentável não é necessariamente mais caro do que um edifício menos sustentável e pode ser significativamente mais económico durante a fase de utilização por ser mais eficiente e consumir menos energia. Assim, com a disseminação das vantagens da sustentabilidade, esta pode vir a ser adotada como regra e poder vir a ser utilizada em maior escala.

Quais são os principais obstáculos à expansão da construção industrializada em Portugal?

É um modelo que está mais evoluído noutros países e em Portugal está a dar os primeiros passos. Diria que a construção em Portugal está ainda na fase do fato por medida e falta dar o passo para o pronto-a-vestir. Este caminho irá contribuir para a redução dos tempos de produção, pela automatização e pela menor influência das condições atmosféricas.

Em Portugal já existem empresas que apostaram na construção industrializada. O maior obstáculo é a dimensão das empresas de construção, muito baseada em PME e poucas grandes empresas. São estas últimas que estão a dar os primeiros passos e são casos de sucesso na redução de desperdícios e nos prazos de construção.

Como podem a saúde e o bem-estar ganhar maior peso nos projetos de construção e reabilitação?

A saúde o e bem-estar dos utilizadores são também critérios da Diretiva EPBD. O conforto térmico foi talvez o primeiro critério desta dimensão, associado à eficiência energética e redução dos consumos na utilização dos edifícios. A renovação do ar no interior é também um critério utilizado na certificação energética dos edifícios e qualidade do ar interior. Um outro critério que poderá também melhorar a qualidade do ar interior é a utilização de materiais que não libertem substâncias nocivas para o interior, como os COV (Compostos Orgânicos Voláteis) que prejudicam a saúde dos utilizadores.

Qual é o papel do Cluster Habitat Sustentável na ligação entre empresas, universidades, centros de investigação e entidades públicas? Que resultados tem alcançado?

O Cluster Habitat Sustentável atua como a principal plataforma de ligação em rede e cooperação em Portugal para acelerar a descarbonização, a inovação e a economia circular em toda a cadeia de valor do habitat e do ambiente construído. O seu papel estratégico consiste em transformar a investigação científica em soluções comerciais reais. E faz a ponte entre o conhecimento técnico e as necessidades de mercado através de uma abordagem assente em parcerias com as universidades e Centros de Tecnologia e Inovação, empresas e entidades públicas como autarquias.

O Cluster tem participado em projetos de Inovação e Desenvolvimento, nomeadamente Horizon, Compete 2020 e PRR. São exemplos: o projeto ILLIANCE, na disseminação de boas práticas de produtos para o Habitat; projetos de saúde e bem-estar para desenvolver soluções de habitação inteligente e inclusiva; projetos de descarbonização e eficiência de recursos com empresas líderes de mercado, promovendo novos ecossistemas industriais; promoção da economia circular e materiais de baixo carbono, entre outros.

Os resultados incluem produtos e processos mais sustentáveis, reforço da competitividade das empresas e boas práticas de construção sustentável, economia circular, digitalização e eficiência de recursos. A colaboração com autarquias aproxima a inovação dos desafios dos territórios, contribuindo para comunidades mais sustentáveis e resilientes.

Que mudanças gostaria de ver no setor do habitat nos próximos anos e como pode o Cluster ajudar a concretizá-las?

Seria importante promover uma cadeia de valor do habitat mais transparente, descarbonizada e circular, em que a sustentabilidade seja comprovada por indicadores objetivos e mensuráveis, e não apenas por argumentos comerciais.

Algumas empresas emitem argumentos comerciais com informações pouco credíveis sobre a sustentabilidade dos produtos, prática designada por greenwashing e proibida pela Diretiva Europeia 2024/825. Uma das funções do Cluster é sensibilizar os consumidores para as boas práticas e disponibilizar ferramentas para medição de indicadores de sustentabilidade com base em cálculos normalizados de Avaliação de Ciclo de Vida, verificáveis por entidade independente. São exemplos as Declarações Ambientais de Produto ou a Pegada de Carbono.


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PROGRAMA DA CONFERÊNCIA DO CLUSTER HABITAT SUSTENTÁVEL 2026

A Conferência do Cluster Habitat Sustentável 2026 coloca no centro a análise dos desafios da sustentabilidade ao longo de toda a cadeia de valor do habitat. O objetivo é discutir soluções e abordagens capazes de responder às exigências do futuro, ao mesmo tempo que se promove o networking e a partilha de experiências entre os participantes, reforçando a cooperação entre os diferentes agentes do setor.

Os temas e os intervenientes

09h30
Receção dos participantes

10h00
Abertura
António Baio Dias (Cluster Habitat Sustentável) e Paulo José da Venda Oliveira (Universidade de Coimbra)

10h15
"O Valor da Sustentabilidade"
Pedro Brinca (NOVA SBE)

10h45
"O Futuro da Certificação Energética de Edifícios"
Rui Fragoso (ADENE - Agência para a Energia)

11h15
Painel: "A Sustentabilidade na Cadeia de Valor do Habitat"
Rui Oliveira (Saint-Gobain Portugal)
Margarida Oliveira (Amorim Cork Solutions)
Raquel Raimundo (Civilria)
Paulo Reis Silva (Saraiva+Associados)
Orador a confirmar (Município de Guimarães/Guimarães 26)
Moderador: Victor Ferreira (Universidade de Aveiro)

12h20
Sessão de Q&A

12h30
Almoço | Networking buffet

14h00
"Pegada de Carbono nas Instituições de Ensino Superior: Desafios e Oportunidades"
Helena Gervásio (Universidade de Coimbra)

14h30
Sessão de Pitches

1. "Ambiente e Eficiência de Recursos"
João Castro (FSC Portugal)
Marta Silva (CERTIF)Sandra Castro (Extruplás)
Vítor Poças (AIMMP)
Margarida Soares (CVR - Centro para a Valorização de Resíduos)
Isabel Santos (Greenlab)

2. "Produtos e Soluções Sustentáveis"
Gonçalo Martins (Perfisa)
José Ávila e Sousa (Grupo Preceram)
Goreti Oliveira (Chatron)
Andreia Andrade (Revigrés)
Paulo Magalhães (Sonae Arauco)
Jorge Carneiro (Grestel)

3. "Territórios e Cidades Sustentáveis"
João Crispim (Grupo Casais)
Maria João Cardoso (Município de Santarém)
Goreti Guedes (SOPSEC)
Daniela Faísca (Secil)
Vera Melo (Cleanwatts Digital)

4. "Saúde e Bem-estar no Habitat"
Daniela Campanhã (CeNTl)
Andreia Costa (01.1)
Maria da Graça Bonifácio (CITEVE)
Thais Soares (Universidade de Aveiro)
Victor Francisco (CTCV)

17h00
Encerramento
Luís Godinho (Universidade de Coimbra)