Fernando Vasco Costa: “O país não precisa apenas de construir mais casas; precisa de construir melhores cidades”

22/07/2026
Fernando Vasco Costa: “O país não precisa apenas de construir mais casas; precisa de construir melhores cidades”
Foto: Raquel Wise

Acaba de ser nomeado Presidente da ULI Portugal (The Urban Land Institute) para o mandato 2026-2028. O que representa para si esta nomeação?

É uma enorme honra e, sobretudo, uma grande responsabilidade. Sucedo a líderes que ajudaram a afirmar a ULI Portugal como uma organização credível, independente e respeitada. Quero dar continuidade a esse legado, reforçando o seu papel como plataforma de conhecimento, colaboração e liderança na construção das cidades do futuro.

A missão da ULI é ajudar a criar cidades mais sustentáveis, inclusivas e prósperas através da partilha de conhecimento e da colaboração entre diferentes setores. É essa missão que pretendo aprofundar em Portugal, aproximando ainda mais o setor público, o setor privado, a academia e a sociedade civil em torno de uma visão comum para as nossas cidades.

Referiu que Portugal enfrenta desafios estruturais urbanos muito sérios. Qual considera ser o maior deles neste momento e porquê?

Hoje o maior desafio é, sem dúvida, a habitação. Durante demasiado tempo deixámos de construir ao ritmo de que o país precisava e acumulámos um défice de oferta que hoje condiciona a vida das famílias, das empresas e da própria economia. Mas gosto de olhar para este desafio de forma positiva. Portugal não precisa apenas de construir mais casas; precisa de aproveitar este esforço para construir melhores cidades.

Se aumentarmos a oferta através da consolidação das áreas urbanas existentes, da regeneração de espaços subutilizados e da criação de bairros completos, estaremos simultaneamente a melhorar o acesso à habitação, a mobilidade, a sustentabilidade, a competitividade e a qualidade de vida.

A habitação não é apenas uma política social. É também uma política económica e, acima de tudo, uma política de cidade.

Definiu cinco prioridades estratégicas para a ULI Portugal. Qual delas acha que terá maior impacto nos próximos dois anos e porquê?

A habitação será naturalmente a prioridade mais visível. Mas espero que o maior impacto seja ajudar a mudar a forma como discutimos este tema. Não basta perguntar quantas casas precisamos. Temos de perguntar que cidades queremos deixar às próximas gerações.

Se respondermos ao desafio da habitação criando bairros mais completos, multifuncionais e bem servidos por transportes públicos, estaremos também a criar cidades mais resilientes, mais sustentáveis, mais inclusivas e mais prósperas.

A primeira prioridade que definiu é contribuir para enfrentar a crise habitacional. O que a ULI Portugal pode fazer de concreto que ainda não esteja a ser feito pelos diversos agentes do setor?

A maior riqueza da ULI é a sua diversidade. Poucas organizações conseguem reunir, em torno da mesma mesa, profissionais e instituições com experiências, responsabilidades e perspetivas tão diferentes sobre a cidade.

É precisamente essa abordagem multidisciplinar que permite encontrar soluções mais equilibradas e mais inovadoras para desafios complexos como a habitação, a regeneração urbana, a sustentabilidade ou a mobilidade.

A ULI pode trazer conhecimento internacional, promover investigação, comparar políticas públicas e criar um espaço de diálogo onde diferentes setores trabalham em conjunto para construir melhores cidades. Não substitui quem decide, mas ajuda a que as decisões sejam mais informadas, mais colaborativas e mais sustentadas.

Gostaria que a ULI contribuísse para um debate cada vez mais baseado em conhecimento e evidência, ajudando a construir uma visão partilhada para o futuro das nossas cidades.

Fala da necessidade de reforçar a regeneração urbana em áreas consolidadas. Tem algum modelo internacional ou projeto em Portugal que considere particularmente inspirador para este desafio?

Existem excelentes exemplos internacionais, como Viena, Copenhaga ou Hamburgo. Todos demonstram que consolidação urbana e qualidade de vida não são conceitos opostos. Pelo contrário. Quando existe bom desenho urbano, mistura de usos, espaço público de qualidade e mobilidade eficiente, as cidades tornam-se simultaneamente mais sustentáveis, mais inclusivas e mais agradáveis para viver.

Portugal tem condições para seguir esse caminho, aproveitando muito melhor terrenos expectantes, antigas áreas industriais, infraestruturas desativadas e outros espaços subutilizados antes de continuar a expandir as periferias.

A terceira prioridade é a criação de cidades mais sustentáveis e resilientes. Como acha que Portugal pode passar de boas intenções para resultados efetivos, especialmente num contexto de limitações orçamentais?

A sustentabilidade não deve ser encarada como um custo, mas como um investimento. Consolidar as cidades permite aproveitar melhor as infraestruturas existentes, reduzir deslocações, proteger território natural e criar maior eficiência económica.

Precisamos de estabilidade nas políticas públicas, capacidade de execução e visão de longo prazo. As cidades não se transformam em quatro anos; constroem-se ao longo de décadas.

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Foto: Raquel Wise

Como CEO da VIZTA, lida diariamente com os desafios reais do desenvolvimento residencial. Como é que esta experiência prática vai influenciar a sua liderança na ULI Portugal?

Ajuda-me a manter uma visão muito pragmática. Conheço bem a complexidade de transformar uma ideia num projeto construído e de conciliar interesses públicos e privados.

Mas essa experiência ensinou-me sobretudo uma coisa: o nosso trabalho não é apenas construir edifícios. É criar cidade. Cada projeto deve deixar um bairro melhor do que encontrou e contribuir para melhorar a vida das pessoas. É essa visão integrada que gostaria de levar para a ULI Portugal.

Pretende posicionar Portugal como referência internacional em inovação urbana. Qual acha que pode ser o “selo” ou a grande contribuição portuguesa para o debate global sobre cidades no futuro?

Portugal tem uma enorme vantagem: cidades de dimensão humana, excelente arquitetura e uma forte cultura urbana. Acredito que podemos tornar-nos uma referência mostrando como é possível responder ao desafio da habitação enquanto criamos cidades mais bonitas, mais inclusivas, mais sustentáveis e mais prósperas.

Esse poderá ser um contributo relevante para o debate internacional e uma forma de projetar Portugal como uma referência de inovação urbana.

No final do seu mandato em 2028, o que gostaria que dissessem sobre o trabalho da ULI Portugal sob a sua liderança? Qual seria, para si, o maior sinal de sucesso?

Gostaria que dissessem que a ULI Portugal ajudou o país a pensar mais longe. Que aproximou pessoas com perspetivas diferentes, promoveu conhecimento independente e contribuiu para decisões mais informadas. Mas, acima de tudo, gostaria que tivéssemos ajudado a mostrar que responder ao desafio da habitação é também uma oportunidade para criar melhores cidades.

Se conseguirmos demonstrar que aumentar a oferta de habitação pode significar regenerar bairros, consolidar as cidades, reforçar a inclusão, promover a sustentabilidade e melhorar a qualidade de vida, teremos deixado um contributo duradouro para Portugal.

Porque, no fim, o nosso trabalho não é apenas construir edifícios. É criar cidades. E são as cidades que moldam a vida das pessoas durante gerações.