Situada na fronteira com a Galiza, Valença é dominada pela imponente Fortaleza Vauban, Património Mundial da Humanidade. As suas muralhas, o rio Minho e o património construído conferem-lhe um valor único. No entanto, como muitos centros históricos de média dimensão, a cidade enfrenta problemas comuns: o despovoamento progressivo do núcleo antigo, a pressão de um turismo por vezes desordenado, a falta de equipamentos modernos e a ausência de uma estratégia territorial coesa.
Ao serviço na vida das cidades
O Masterplan Valença 2030 surge como resposta a esta realidade. Para Carvalho Araújo, a arquitetura deve estar ao serviço da vida nas cidades, servindo as pessoas na sua diversidade. O documento estrutura-se em torno de três pilares fundamentais – viver, trabalhar e visitar –, que funcionam como critério de avaliação de todas as intervenções propostas.
Viver passa por garantir habitação de qualidade, espaços públicos humanizados e serviços de proximidade que reforcem as comunidades residentes, tanto no centro histórico como nas zonas de expansão. Trabalhar visa criar condições para fixar atividade económica diversificada, desde o comércio tradicional às indústrias criativas, através de infraestruturas e conectividade que atraiam e retenham talento. Visitar aposta num turismo cultural sustentável, valorizando a fortaleza, o rio e a singularidade fronteiriça sem comprometer a qualidade de vida dos valencianos.
Um novo eixo urbano
Entre as operações mais relevantes destacam-se a criação de um novo eixo urbano que unirá o Fórum Intercultural, o Mercado Municipal e o Campo da Feira; a transformação do Mercado Municipal num auditório multifuncional; a reconversão da Antiga Alfândega num polo cultural; a implementação de um Museu Ferroviário; a requalificação da frente ribeirinha e da Avenida dos Bombeiros Voluntários; e uma profunda reorganização da mobilidade, priorizando os percursos pedonais e reduzindo a circulação automóvel junto à Fortaleza.
O plano equilibra com sensibilidade o património histórico e as exigências contemporâneas, promovendo a sustentabilidade urbana e a coesão social. Não se trata de inventar uma cidade nova, mas de potenciar o que Valença já é, escutando o território e as suas gentes.
“Uma conversa com o território”
O arquiteto sublinha esta filosofia: “Valença é uma cidade que carrega séculos de história nas suas pedras e nas suas gentes. O nosso trabalho não foi o de projetar uma cidade nova – foi o de escutar o que esta cidade já é e ajudá-la a tornar-se mais plenamente ela própria. Um Masterplan não é um decreto: é uma conversa longa com o território, com as pessoas que nele vivem e com as gerações que ainda nele hão de viver. Queremos que daqui a dez anos alguém passe por Valença e sinta que esta é uma cidade que cuida de quem a habita – que tem espaço para os mais velhos e para os mais novos, para quem trabalha e para quem visita, para a memória e para o futuro.”
Com este Masterplan, Valença posiciona-se como exemplo de como o planeamento urbano pode ser simultaneamente respeitador do passado e ousado no futuro. A valorização do espaço público, a melhoria da mobilidade e o reforço da oferta cultural e habitacional surgem como vetores de uma transformação que pretende tornar a cidade mais habitável, dinâmica e atrativa, sem nunca perder a sua essência fronteiriça e patrimonial.


