Frederico Roeber
Frederico Roeber
Arquiteto e sócio fundador do gabinete hori-zonte

Arquitetura: o regresso ao lugar

02/09/2026

Durante séculos, a arquitetura foi uma disciplina profundamente local. Cada edifício nascia de um diálogo entre o clima, a geografia, os materiais disponíveis e a cultura de quem o habitava. Construir significava interpretar. A orientação solar, o vento, a chuva, a topografia e os recursos disponíveis determinavam a forma dos edifícios. A diversidade arquitetónica era consequência natural da diversidade dos territórios. Os romanos chamavam-lhe genius loci: o espírito do lugar. A ideia de que cada sítio possui uma identidade própria que a arquitetura deve compreender, e não apagar.

A história da arquitetura pode ser lida como uma longa conversa entre o ser humano e o território. Desde os primeiros assentamentos, construir significava proteger e organizar a vida coletiva. Os egípcios construíram para eternizar; os gregos para estabelecer ordem; os romanos fizeram da arquitetura uma infraestrutura de civilização, onde o conforto urbano era entendido como um bem comum e não como um privilégio. Talvez este seja um dos grandes paradoxos da arquitetura contemporânea: quanto maior é a nossa capacidade tecnológica, menor parece ser a relação dos edifícios com o território onde se inserem. Nunca dispusemos de tantos meios para compreender o lugar e, ainda assim, raramente a arquitetura pareceu tão indiferente ao clima, à geografia e à cultura que a envolvem.

O século XX alterou profundamente esta relação. Le Corbusier sintetizou uma nova visão ao definir a casa como uma ”máquina de habitar”. A ideia foi revolucionária e respondeu às necessidades da industrialização e da reconstrução europeia. Mas inaugurou também uma arquitetura progressivamente autónoma do território, onde a técnica começou, muitas vezes, a substituir a leitura do clima.

A arquitetura tornou-se global. O clima não.

Hoje, a mesma linguagem arquitetónica repete-se em geografias profundamente distintas, como se a latitude, os ventos dominantes ou a radiação solar fossem meros detalhes. Criámos edifícios tecnologicamente sofisticados, mas frequentemente dependentes de sistemas mecânicos para garantir aquilo que, durante séculos, o próprio projeto resolvia de forma passiva.

A questão é que o conforto nunca foi apenas temperatura. É luz, ventilação, silêncio, matéria e relação com a natureza. É experiência. Peter Zumthor recorda-nos que a qualidade da arquitetura reside na capacidade de criar atmosferas, espaços que permanecem na memória porque dialogam com todos os sentidos. Não habitamos apenas edifícios. Habitamos lugares.

Perante a emergência climática, talvez o verdadeiro desafio já não seja acrescentar mais tecnologia, mas desenvolver uma nova cultura de projeto. Uma cultura que recupere a capacidade de ler o território e de integrar o clima como matéria de arquitetura. Pela primeira vez, ferramentas como a modelação paramétrica, as simulações ambientais e a inteligência artificial permitem compreender com enorme precisão o comportamento de um edifício antes de ser construído. A tecnologia deixa, assim, de servir para contrariar o lugar e passa a oferecer-nos a possibilidade de projetar a partir dele.

Talvez estejamos perante uma mudança de paradigma. Se o século XX foi marcado pela ambição de controlar o clima, o século XXI poderá afirmar uma arquitetura que volta a escutá-lo.

Poderíamos chamar-lhe Climaticismo.

Não um estilo arquitetónico, mas uma atitude projetual. Uma arquitetura baseada na empatia climática, no desempenho passivo e na utilização inteligente da tecnologia para reforçar a relação entre edifício, território e pessoas. Uma arquitetura que reconhece que a inovação não está em uniformizar soluções, mas em responder, de forma específica, a cada lugar.

Porque a arquitetura sempre foi uma arte de mediação entre o ser humano e o ambiente. Quando deixa de cumprir essa função, transforma-se apenas em imagem. E a imagem, por mais sedutora que seja, não arrefece cidades, não reduz consumos energéticos nem melhora a qualidade de vida. Talvez a maior ironia do nosso tempo seja esta: depois de um século a tentar vencer o clima através da tecnologia, descobrimos que os edifícios mais inteligentes nunca foram os que melhor se isolavam do exterior, mas aqueles que sabiam escutá-lo.