Há uma mudança silenciosa na forma como usamos as cidades.
Multiplicam-se as pessoas que caminham, correm, pedalam ou simplesmente permanecem no espaço público. Mais do que uma tendência desportiva, este fenómeno revela uma procura crescente por cidades onde seja possível estar em movimento e encontrar outras pessoas.
Em 2024, a participação em run clubs, registada pelo Strava, cresceu 59% e 58% dos inquiridos afirmaram ter feito novos amigos através de grupos de atividade física. Correr deixou de ser apenas uma prática individual. Tornou-se também uma forma de encontro e pertença. E a prática regular de atividade física contribui para a saúde e o bem-estar.
Esta transformação é relevante para o urbanismo e a arquitetura porque nos obriga a olhar para a cidade de outra forma. A atividade física não acontece apenas em ginásios ou equipamentos desportivos. Acontece no percurso entre casa e o trabalho, no caminho para a escola ou na rua onde se decide caminhar em vez de entrar no carro.
A cidade pode ser, ela própria, uma infraestrutura de saúde.
A Organização Mundial da Saúde estima que, em Portugal, 38% dos homens e 49% das mulheres adultas eram fisicamente inativos em 2022. Entre os maiores de 70 anos, os valores subiam para 53% e 65%. A inatividade física não é apenas uma questão individual. As cidades que construímos podem facilitar ou dificultar a incorporação do movimento na vida quotidiana.
É aqui que a arquitetura e o desenho urbano podem desempenhar um papel determinante.
Além dos equipamentos desportivos, precisamos de espaços quotidianos que convidem ao movimento: ruas confortáveis para caminhar, percursos contínuos, sombra, vegetação, bancos, travessias seguras e praças onde seja possível permanecer. Ligações entre bairros, escolas, parques, comércio, equipamentos e transportes completam esta rede.
O princípio mais importante é, talvez, o da continuidade.
Um passeio de 500 metros, sem ligação a uma rede urbana mais ampla, tem um impacto limitado. O mesmo acontece com uma ciclovia que termina sem continuidade. O verdadeiro potencial surge quando estes elementos se articulam numa rede integrada, que facilita a mobilidade e cria espaços de encontro e permanência.
Essa continuidade permite que cada pessoa utilize a cidade de acordo com o seu próprio ritmo. Uma criança pode ir a pé para a escola. Uma pessoa mais velha pode fazer um percurso diário sem depender do automóvel. Um grupo de corrida pode atravessar vários bairros.
A cidade não precisa de ser uma pista. Precisa de permitir que cada pessoa encontre o seu percurso.
Esta infraestrutura pode ainda responder a outros desafios. Árvores e sombra reduzem a exposição ao calor. A vegetação contribui para a biodiversidade. Solos permeáveis ajudam a gerir a água. Espaços de descanso tornam os percursos mais inclusivos. A proximidade entre funções reduz deslocações de carro.
Uma mesma decisão de projeto pode, assim, produzir benefícios em várias dimensões: saúde, conforto, adaptação climática, biodiversidade e coesão social.
É talvez aqui que a discussão sobre smart cities merece ser repensada.
As cidades serão inevitavelmente mais high-tech: sensores, dados e inteligência artificial podem ajudar-nos a compreender e a gerir melhor as cidades. Mas a inteligência urbana mede-se também na experiência quotidiana: na segurança de uma travessia, na sombra de um percurso, na facilidade de chegar a um parque ou na possibilidade de encontrar outras pessoas. A tecnologia ganha sentido quando ajuda a criar estas condições.
Porque, no final, a qualidade de uma cidade pode medir-se por uma pergunta muito simples: “É fácil viver nela a pé?”



