Filipa Ferreira Gomes
Filipa Ferreira Gomes
Founder & Arquitecta do TȮLISS Atelier

Cooperativas de habitação: o regresso ao valor de uso

22/04/2026

Perante a crise habitacional em Portugal, impõe-se que a arquitetura resgate o seu propósito: dignificar o ato de habitar, rejeitando a sua mercantilização como estrito ativo financeiro. Ao emancipar-se das lógicas especulativas do mercado, o projeto arquitetónico volta a centrar-se na experiência concreta do espaço e na autêntica vivência humana, afirmando o desenho da habitação como um motor de diálogo contínuo e regenerador com a cidade.

A historiografia portuguesa oferece a prova viva de que esta ambição não é uma miragem teórica. O laboratório do SAAL, no pós-Revolução, rompeu com o urbanismo tecnocrático e provou que o desenho participativo materializa o direito à cidade e à habitação. Contudo, o vigor do modelo cooperativo supera a mera nostalgia histórica: a sua potência reside hoje em reconfigurar a própria estrutura do projeto, assumindo-se como promotor de uma habitação de exceção.

Para que este legado possa de facto aportar valor ao mercado atual, a lucidez deste debate exige, porém, que se rejeitem utopias estéreis: a solução não passa pela erradicação da promoção imobiliária privada — cuja existência é estrutural na dinâmica das cidades —, mas pela urgência de quebrar o seu atual monopólio. Para mitigar a atual asfixia urbana, é imperativo alavancar as cooperativas como uma via, paralela e complementar. Na sua génese, o cooperativismo divide o valor de uso do valor de troca. Ao rejeitar a lógica da promoção comercial, o orçamento liberta-se do imperativo do dividendo imediato. Para o arquiteto, este mecanismo emancipa a prática de projeto da asfixia financeira, restituindo o foco à eficácia tipológica: a organização dos espaços funcionais liberta-se da métrica do lucro, permitindo que a resiliência construtiva, o desempenho passivo e a generosidade da planta prevaleçam sobre a estrita maximização da rentabilidade por metro quadrado.

Mas esta generosidade tipológica não se esgota no interior da habitação. Estes projetos, ao transcenderem a escala do objeto edificado, constituem-se como vetores de enriquecimento urbanístico, sustentando uma interface dialógica permanente com a sua envolvente. A arquitetura cooperativa não se encerra em si mesma; pelo contrário, propõe dispositivos funcionais capazes de articular e regenerar pequenos fragmentos do território. Ao desenhar o diálogo entre o edificado e o espaço público, estas intervenções transformam a habitação num catalisador de coesão, capaz de gerir e dignificar a morfologia urbana onde se inserem.

É também neste território desmercantilizado que a consciência climática se funde com a forma: se no mercado especulativo a sustentabilidade degenera recorrentemente em greenwashing, no modelo cooperativo assume-se como a espinha dorsal do projeto. Liberta da ditadura do lucro, a arquitetura explora o desenho passivo e o baixo impacto carbónico para uma apropriação duradoura — uma premissa rigorosamente materializada no complexo La Borda, em Barcelona. Erguido em madeira laminada (CLT) pelos próprios residentes, o edifício atinge a neutralidade carbónica através de pátios de tiragem térmica, enquanto o seu modelo de co-housing subverte a dicotomia público-privado, reinventando a sociabilidade ao coletivizar espaços e serviços.

Em suma, mais do que uma mera alternativa à lei da oferta e da procura, a consolidação de cooperativas sólidas assume-se como um laboratório para a reinvenção do modo de construir e um segmento complementar vital para o setor. Este modelo constitui o contrato social de que a arquitetura carece para efetivar o direito ao espaço habitável, oferecendo respostas concretas à atual pressão habitacional através de um desenho intrinsecamente participativo e sustentável.