Domingos Silva
Domingos Silva
Vice-Presidente da Região Norte da APEMIP

O efeito da instabilidade no Médio Oriente no imobiliário português

25/03/2026

A instabilidade no Médio Oriente, com impacto direto nos preços da energia e nas cadeias de abastecimento globais, volta a colocar o setor imobiliário no centro das dinâmicas económicas internacionais.

Em momentos de incerteza, o imobiliário tende a assumir um duplo papel: simultaneamente refúgio de valor e vítima colateral das pressões inflacionistas.

Portugal surge, neste contexto, como um caso particularmente interessante. Num mundo marcado por tensões geopolíticas, a estabilidade política, a segurança e a qualidade de vida tornam-se ativos diferenciadores. E é precisamente aqui que o país ganha relevância. Para investidores internacionais, famílias estrangeiras ou mesmo residentes de geografias indiretamente afetadas pelo conflito, Portugal continua a ser percecionado como um “porto seguro” dentro da União Europeia.

Este posicionamento poderá reforçar a procura externa, que tende a expandir-se para lá dos mercados tradicionais de Lisboa e Porto, alcançando territórios de menor densidade que têm vindo a ganhar notoriedade. Em períodos de volatilidade nos mercados financeiros, há uma tendência clara para a valorização de ativos reais, sendo o imobiliário um dos principais beneficiários dessa migração de capital.

Contudo, esta realidade convive com um conjunto de pressões que não podem ser ignoradas. A escalada dos preços do gás e do petróleo tem um efeito direto no aumento dos custos de construção, quer pela via da energia, quer pelo encarecimento dos materiais. Algo que pode atrasar projetos, reduzir novas construções e agravar um problema estrutural já conhecido: a escassez de oferta.

Paralelamente, o impacto inflacionista pode levar a políticas monetárias mais restritivas, com eventuais subidas das taxas de juro. Para o mercado doméstico, sobretudo para a classe média, isto traduz-se numa dupla pressão: imóveis mais caros e crédito à habitação menos acessível.

O resultado poderá ser um abrandamento da procura interna, num momento em que o acesso à habitação já se encontra sob forte tensão.

O cenário que se desenha é, por isso, misto. Por um lado, segmentos premium e zonas urbanas e turísticas, poderão beneficiar de um reforço do investimento estrangeiro e da valorização dos ativos. Por outro, o mercado residencial direcionado para a procura interna enfrenta desafios acrescidos, tanto do lado da oferta como da acessibilidade.

Ainda assim, há uma tendência que parece manter-se: a pressão em alta sobre os preços. O desequilíbrio entre oferta e procura, aliado ao aumento dos custos de construção, deverá continuar a sustentar a valorização do imobiliário. No entanto, essa valorização poderá não ser acompanhada por um aumento do número de transações, antes pelo contrário.

Em última análise, o impacto desta instabilidade dependerá, sobretudo, da sua duração. Quanto mais prolongado for o contexto de incerteza, mais profundos serão os seus efeitos.

O imobiliário português, resiliente por natureza, continuará a adaptar-se, mas não deverá ficar imune às ondas de choque de um mundo em transformação.