Nunca houve tanta oferta formativa no setor imobiliário e, paradoxalmente, nunca o setor precisou tanto de formação.
Apesar deste paradoxo ser evidente, poucos refletem sobre o que este facto revela acerca do estado atual da mediação imobiliária em Portugal.
Quando alguém está doente e precisa de medicação, só há uma coisa pior do que não tomar nada: tomar a medicação errada. Nesta metáfora cabe uma parte relevante do setor: há quem não tome qualquer medicação; e há quem tome a medicação errada, acreditando que está a resolver o problema.
Muito se discute sobre a falta de exigência no acesso à profissão. Uma preocupação, na sua génese, compreensível. Mas não acredito numa cultura de lamentação permanente. A realidade é a que é. Podemos discordar do enquadramento legal, mas enquanto empresários e líderes do setor temos a responsabilidade de trabalhar com o contexto existente e contribuir para o elevar.
O que verdadeiramente me preocupa é o impacto que a formação atual e, muitas vezes, a ausência dela, tem na qualidade do serviço prestado. A mediação imobiliária é uma atividade exigente e multidisciplinar. Envolve o enquadramento legal do imóvel, o seu potencial urbanístico, implicações fiscais, procedimentos administrativos, financiamento e múltiplas variáveis técnicas e humanas. Um profissional deve ter conhecimento suficiente para orientar o cliente com rigor e segurança. Sem esse conhecimento, não há aconselhamento: há apenas intermediação.
Naturalmente, existem especialistas para matérias técnicas específicas. Mas é impensável exercer esta atividade desconhecendo os fundamentos do processo imobiliário. A confiança constrói-se com conhecimento, não com improviso.
Seria expectável que as formações nestas matérias estivessem cheias. Mas não estão. Ao longo do tempo, o setor foi privilegiando aquilo que é mais apelativo aprender, e não necessariamente aquilo que é mais essencial.
Hoje abundam formações em geração de leads, redes sociais, ferramentas digitais ou inteligência artificial. São úteis e relevantes. Mas, isoladamente, pouco acrescentam ao serviço prestado. Nenhuma ferramenta substitui o conhecimento técnico, o rigor ou o sentido de responsabilidade.
Mal comparando, é como frequentar um curso de culinária onde se ensina tudo menos a cozinhar. Podemos ter uma excelente apresentação e uma forte capacidade de atração. Mas, se a base falhar, não haverá confiança nem continuidade.
Há muito que o setor aguarda uma evolução legislativa que acompanhe a sua maturidade. E, se há área onde essa evolução é determinante, é na formação e qualificação profissional. Enquanto Associação, podemos sensibilizar, formar e promover uma cultura de maior exigência. Mas é essencial um enquadramento que valorize a qualificação e consolide padrões claros.
Um setor que intermedeia uma das decisões mais importantes da vida das famílias não pode depender apenas da iniciativa individual. Tem de assentar em competência e responsabilidade.
Sem isso, continuaremos a tratar os sintomas, sem resolver o problema.



