Virgiliu Obada
Virgiliu Obada
Sustainability & ESG da B. Prime

De inovação a requisito mínimo

03/06/2026

A expressão arquitetura sustentável ganhou hoje um lugar central no discurso de projetistas, construtores e promotores imobiliários. A questão que se impõe, porém é mais incómoda do que parece: estamos perante uma obrigação regulamentar, uma resposta ambiental ou apenas uma tendência de mercado?

Na prática, a fronteira entre um projeto sustentável e um projeto convencional já não se mede pela retórica. Mede-se pela capacidade de equilibrar, de forma consistente, três dimensões essenciais: desempenho, conforto e viabilidade económica.

Subscrevo Álvaro Siza Vieira quando afirma que uma casa sustentável é uma casa confortável”, numa entrevista a Maria Cruz publicada no site TRENDS (Cruz, 2019).

A frase é simples, mas resume bem uma verdade essencial. A arquitetura sustentável é, no fundo, arquitetura pensada para as pessoas.

Talvez, um dia, possamos até dispensar o adjetivo por completo e voltar a chamar-lhe apenas arquitetura.

Num setor em que os requisitos legais e as expectativas do mercado seguem ritmos diferentes, a sustentabilidade deixou de ser um ornamento discursivo. Passou a ser uma forma de proteger o projeto da erosão silenciosa provocada pelo orçamento, pelo cronograma e pela pressão estética do imediato.

É neste contexto que surgem certificações credenciadas como BREEAM e LEED.

Não como etiquetas verdes, nem como ornamentos reputacionais, mas como instrumentos de disciplina e de medição de desempenho. Obrigam a quantificar, comparar e justificar escolhas, distinguindo o que é apenas o mínimo legal do que é, de facto, o mínimo aceitável.

A inovação, regra geral, começa na esfera privada e só mais tarde entra na lei. Por isso, não é estranho que um edifício certificado possa parecer, à primeira vista, uma estratégia de marketing. Talvez seja.

Mas isso não constitui um problema, desde que o marketing tenha lastro no desempenho real e verificado.

A evolução dos requisitos de sustentabilidade segue, aliás, uma lógica conhecida. Tal como o cinto de segurança de três pontos da Volvo começou por ser inovação e acabou por se tornar referência, também a sustentabilidade percorre esse caminho: primeiro diferenciação, depois prática de mercado, e mais tarde obrigação legal.

A transposição da nova EPBD (Diretiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios), cujo prazo terminou a 29 de maio de 2026, vem acelerar a fase final deste processo que dará origem ao Plano Nacional de Renovação de Edifícios (PNRE).

O objetivo do mesmo é estruturar, de forma sistemática e organizada, a renovação de um parque imobiliário envelhecido, em que cerca de dois terços dos edifícios são anteriores a 1990, numa altura em que ainda não existiam requisitos legais consolidados de eficiência energética, qualidade do ar interior ou conforto ambiental.

No entanto, o que está realmente em causa não é apenas cumprir a lei.

É definir um novo mínimo aceitável.

Não é aceitável passar frio dentro de casa.

Não é aceitável depender de dezenas de equipamentos para garantir condições básicas de conforto, como se o edifício precisasse de suporte artificial de vida para funcionar.

As pessoas querem edifícios que respirem, que se abram ao sol mediterrânico, que acolham a água da chuva e que voltem a dialogar com a tradição construtiva que sempre fez parte da nossa arquitetura.

Na verdade, muitas das respostas que procuramos já existem, ou existiram, na forma como historicamente soubemos adaptar os edifícios ao clima, aos materiais locais e àquilo que torna cada imóvel único no seu contexto sociocultural e antropológico

A sustentabilidade, em última instância, não passa, na maioria dos casos, por mais tecnologia, materiais inovadores ou soluções complexas. Passa por redescobrir o que a nossa arquitetura já sabia fazer bem.

Se queremos edifícios mais confortáveis, mais eficientes, mais duradouros e mais competitivos, teremos de aceitar uma evidência simples, o mercado já avançou.

Cabe agora à lei transpor essa mudança, de forma adaptada e consciente, para a realidade portuguesa.

Talvez esse seja o próximo passo natural da arquitetura, deixar de tratar a sustentabilidade como exceção e passar a reconhecê-la como norma.