Um dos dogmas que mais vejo ser apresentado por economistas é que a construção civil tem uma produtividade muito baixa. Há umas semanas li inclusive um artigo de opinião de um reputado economista que comparava a evolução da produtividade da agricultura com a da construção. Naturalmente (ironia), a construção perdeu. E desde sempre que vejo esta opinião veiculada por vários economistas.
Kant defendia que um bebé, quando nasce, não é uma folha em branco. O seu cérebro já tem mecanismos inatos que permitem categorizar observações. Alguns economistas, quando nascem, já trazem a categorização de que tudo o que envolve a construção é atrasado. Mas vamos a factos.
Não é possível comparar objetiva e seriamente duas áreas tão distintas como a agricultura e a construção. Um terreno pode ser cultivado pelo menos uma vez por ano, no mesmo local, durante dezenas de anos. A construção nunca acontece no mesmo local, pelo menos num intervalo de dezenas de anos. Esta condição é, à partida, uma diferença substancial tendo em conta acessibilidades, movimentação de recursos, estaleiro, diferente geologia, etc. Eu diria que os únicos pontos de contacto entre estas duas áreas seriam a mão de obra intensiva (cada vez menos, em ambos os casos) e, na maior parte dos casos, uma exposição decisiva a condições climatéricas anormais.
Mas quais as evoluções na construção civil, nos últimos 50 anos, que parecem passar despercebidas à maior parte das pessoas, tendo em conta a perceção generalizada de uma atividade atrasada? São várias e passo a enumerar algumas:
- Máquinas para movimentos de terras;
- Produção de betão em centrais dedicadas;
- Pré-fabricados de betão, aço e madeira para montagem em obra;
- Utilização generalizada de meios elevatórios (gruas, plataformas, multifunções, etc);
- Coberturas e fachadas em elementos pré-fabricados;
- Divisórias e tetos interiores em gesso cartonado;
- Pavimentos flutuantes;
- Carpintaria e mobiliário modular;
- Softwares de projeto, preparação e gestão de obra.
Uma moradia unifamiliar demora hoje cerca de 18 meses a construir, tal como demorava (mais ou menos) há 50 anos. A diferença é que a complexidade e a exigência regulamentar atuais são tais que hoje se constrói muito mais, no mesmo tempo, apesar do produto final, para os leigos, parecer o mesmo. Cria-se muito mais valor em 18 meses do que há 50 anos.
Há 50 anos não havia preocupações de AVAC, telecomunicações, CCTV, deteção de incêndio e intrusão, térmica, acústica, gestão de resíduos, nem sequer o licenciamento das respetivas obras tinha o rigor atual. As empreitadas executavam-se com meia dúzia de desenhos, quando havia desenhos. Não é comparável.
A construção tem feito, nos últimos anos, um notável trabalho de evolução: nos materiais, onde há inovação a acontecer quase todos os dias, apesar da cada vez maior regulação; nos equipamentos, com o uso de máquinas alternativas à força de braços na maior parte das áreas da construção (carpintaria, serralharia, movimentos de terras, etc.) e, acima de tudo, nas pessoas, que estão cada vez mais tecnicamente preparadas em obra (e no escritório), com a adoção de tecnologia de projeto, acompanhamento e gestão de obra.
O caminho que a construção civil ainda tem para melhorar é o da maior regulação da atividade, dado que a grande fragmentação de fornecedores no mercado leva a que muitos atores não tenham as competências certas para as atividades que praticam, o que muitas vezes faz parecer que a área não se modernizou. Mas não é verdade. Naturalmente que há muito para fazer, mas não há tanto quanto alguns querem fazer crer.



