Taxa de esforço: famílias gastam 80% do salário na renda e 70% na compra de casa

25/02/2026
Taxa de esforço: famílias gastam 80% do salário na renda e 70% na compra de casa
FREEPIK

Estes dados foram revelados por uma análise detalhada do idealista: no panorama nacional, as famílias dedicaram, em média, 80% do seu rendimento ao pagamento mensal de uma casa arrendada, enquanto a aquisição de habitação própria consumiu cerca de 70% desse mesmo rendimento.

Estes valores refletem uma realidade preocupante e persistente: o acesso a uma habitação digna e adequada continua a representar um fardo financeiro desproporcional para a grande maioria das famílias portuguesas, limitando severamente a sua capacidade de poupança, consumo noutras áreas essenciais ou planeamento de futuro.

A taxa de esforço teórica

Esta elevada taxa de esforço — que mede a proporção do rendimento familiar bruto afetada pelas despesas com habitação — demonstra as dificuldades crescentes enfrentadas por muitos portugueses num mercado imobiliário marcado por preços elevados das casas e rendas, salários que crescem a ritmos mais lentos e um contexto económico ainda influenciado por inflação acumulada, taxas de juro e outros fatores macroeconómicos.

A recomendação generalizada de especialistas e instituições financeiras é que, e há muitos anos, a taxa de esforço não ultrapasse os 33% do rendimento para garantir sustentabilidade financeira a longo prazo. No entanto, os números nacionais de 2025 mostram que a realidade está muito distante desse patamar considerado saudável, o que agrava problemas sociais como a sobrelotação habitacional, o adiamento da emancipação dos jovens, a emigração por razões económicas e até situações de risco de pobreza habitacional.

Taxa de esforço no arrendamento

Ao analisar as 20 capitais de distrito contempladas no estudo do idealista, verifica-se uma enorme disparidade regional, mas com um padrão claro: o arrendamento continua a ser particularmente oneroso nas zonas costeiras e turísticas, onde a procura (muitas vezes impulsionada por nómadas digitais, turismo e investimento estrangeiro) pressiona fortemente os preços das rendas.

O Funchal, na ilha da Madeira, destaca-se negativamente como a cidade mais difícil para arrendar casa, exigindo uns impressionantes 93% do rendimento familiar médio apenas para cobrir a renda. Segue-se Faro (Algarve), com 90%, e Lisboa, a capital, com 84% — valores que indicam que, nestas localidades, as famílias praticamente esgotam o seu orçamento com a habitação, deixando pouco ou nenhum espaço para outras despesas essenciais como alimentação, transportes, saúde, educação ou lazer.

Outras cidades com taxas de esforço elevadas incluem o Porto (69%), Setúbal (67%), Ponta Delgada (Açores) (58%), Braga (57%), Aveiro e Viana do Castelo (55%), Évora e Santarém (52%), Leiria (50%), Coimbra (45%), Vila Real (43%) e Viseu, com 42%.

Estes percentuais, na sua maioria acima dos 50%, revelam que mesmo em cidades de média dimensão ou do interior do continente, o arrendamento já consome uma fatia muito significativa do rendimento, dificultando a vida das famílias residentes.

Por outro lado, algumas capitais do interior apresentam valores mais moderados, embora ainda longe do ideal. As rendas pesam menos em Bragança (39%), Beja (37%) e Castelo Branco (36%). Apenas duas cidades conseguem aproximar-se — ainda que ligeiramente — do limite recomendado de 33%: Portalegre e Guarda, ambas com 34%. Estas localidades do interior profundo surgem, portanto, como os mercados mais acessíveis do país para quem procura arrendar casa sem comprometer excessivamente o orçamento familiar.

Taxa de esforço na compra de habitação

No caso da aquisição de habitação própria, o cenário é igualmente desafiante — e, em alguns casos, ainda mais grave. A nível nacional, a taxa de esforço média fixou-se nos 70%, o que significa que, para muitas famílias, o pagamento da prestação do crédito habitação (ou o custo equivalente) absorve a maior parte do rendimento disponível.

Das 20 cidades analisadas, Lisboa lidera de forma destacada e preocupante, com uma taxa de esforço de 113% — um valor que supera os 100% e indica que, em média, o custo mensal de comprar casa ultrapassa mesmo o rendimento total das famílias, tornando a compra efetivamente insustentável sem apoios familiares, rendimentos extra ou condições muito favoráveis de financiamento. Seguem-se o Funchal, com 102%, e Faro, com 97% — novamente, as zonas insulares e algarvias aparecem entre as mais pressionadas.

Outras cidades com taxas elevadas incluem Aveiro (77%), Porto (72%), Ponta Delgada (65%), Braga (62%), Viana do Castelo (60%), Setúbal e Leiria (58%), Coimbra (54%), Évora e Santarém (45%) e Viseu com 41%.

Nestes casos, a compra de casa continua claramente acima do nível sustentável na grande maioria das capitais de distrito analisadas, o que explica por que tantos portugueses adiam a compra ou recorrem a soluções como viver com os pais por mais tempo, partilhar casa ou optar por imóveis mais pequenos e periféricos.

Um pequeno grupo que foge à regra

Em contraste, apenas um grupo restrito de cidades do interior apresenta taxas de esforço iguais ou inferiores ao recomendado de 33%, tornando-as opções relativamente mais viáveis para quem pretende comprar casa: a Guarda, com 18% (o valor mais baixo do país), Portalegre (21%), Castelo Branco (22%), Beja (26%), Bragança (27%) e Vila Real, com 31%.

Estas seis localidades destacam-se como os mercados mais acessíveis para aquisição de habitação, beneficiando de preços de imóveis significativamente mais baixos face às grandes áreas metropolitanas e zonas turísticas.

Um mercado imobiliário muito pressionado

Em suma, os dados do idealista referentes ao quarto trimestre de 2025 confirmam que o mercado habitacional português permanece profundamente desigual e pressionado. Enquanto as grandes cidades e regiões turísticas impõem taxas de esforço insustentáveis, tanto no arrendamento como na compra, o interior do país oferece algumas opções mais acessíveis — embora muitas vezes acompanhadas de menor oferta de emprego, serviços e dinamismo económico.

Esta dicotomia agrava as assimetrias regionais e torna urgente a implementação de políticas públicas eficazes: aumento da oferta de habitação a preços controlados, incentivos ao arrendamento acessível, revisão dos critérios de concessão de crédito habitação, programas de apoio às famílias de rendimentos médios e baixos, e medidas que estimulem a construção em zonas menos pressionadas. Sem intervenções estruturais, o sonho da habitação adequada continuará fora do alcance de uma parte significativa da população portuguesa.

De onde vêm os dados?

Os valores de arrendamento são obtidos diretamente da fonte de dados do idealista, que disponibiliza preços para cada cidade. Por sua vez, os dados do rendimento líquido familiar são fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). No caso da compra de habitação, e mais recentemente devido à descida nas taxas de juro, procedeu-se a uma atualização do cálculo com base nos dados publicados pelo Banco Central Europeu (BCE).