Façamos um exercício de imaginação: veja-se a entrar num apartamento lisboeta ou portuense, por exemplo, do século XIX. A porta abre-se lentamente e, de repente, o olhar vai subindo, subindo, até se perder num teto a quatro ou cinco metros de altura, adornado por estuques, rosáceas e um lustre que parece flutuar.
Mas agora pense que está a entrar num T3 novo localizado numa das nossas cidades: e o teto está mesmo ali, quase parece ao alcance da mão, a 2,50 ou 2,70 metros, liso, branco — e sem história. A diferença é tão gritante que parece que vivemos em escalas diferentes da humanidade.
Quanto mais alto…
A verdade é que os tetos altos dos prédios antigos não eram um simples capricho de arquitetos excêntricos — eram, verdadeiramente, a tecnologia de ponta do seu tempo. Vejamos como…
No século XIX não havia ar condicionado. Em Lisboa, no Porto ou no Rio de Janeiro os verões podiam (e podem) ser brutais. O expediente mais eficiente que os engenheiros e mestres-de-obras conheciam, por força da prática, era simples: concluíram que quanto mais alto estivesse o teto, mais o ar quente subia e ficava “preso” lá em cima (por ser menos denso), longe das cabeças dos moradores.
O ar quente acumulava-se junto ao teto, enquanto a zona até cerca de dois metros do chão permanecia relativamente mais fresca. Era uma forma rudimentar de arrefecimento passivo — gratuito e eficiente dentro dos limites da época.
Fumos tóxicos e partículas
Havia também, e não era coisa despicienda, a questão do fumo. Tudo, ou quase, contribuía para a sua formação: velas, candeeiros a óleo, lareiras — tudo lançava para o ar partículas, cheiros e fumos potencialmente nocivos. Um pé-direito de quatro metros permitia que esse “ar mau” subisse e se acumulasse acima da linha da respiração.
A título de curiosidade, diga-se que muitos médicos da época, ainda influenciados pela teoria dos miasmas (que defendia que doenças como a cólera eram causadas pela inalação de “ares pestilentos”), acreditavam que o “ar viciado” permanecia nos espaços baixos enquanto o “ar puro” ficava mais acima. Estavam cientificamente errados, e, na prática, os tetos altos ajudavam a diluir poluentes interiores e melhoravam a qualidade do ar. Eram, digamos, uma ajuda à saúde pública.
E então o status?
Mas havia ainda uma terceira razão, e era social: a altura do pé-direito de uma casa significava estatuto. Isto é: quem se podia dar ao luxo de desperdiçar metros cúbicos de espaço em plena Revolução Industrial era porque tinha dinheiro para isso. Um salão com cinco metros de pé-direito, molduras de gesso trabalhadas à mão e um lustre de cristal era o equivalente atual a ter uma piscina infinita no topo de um prédio de luxo. Era ostentação, claro — mas com uma função concreta.
Mas chegados ao século XX, foram muitas as coisas que começaram a mudar: surgiu a eletricidade, o aquecimento central, mais tarde o ar condicionado, os códigos de construção modernos e, acima de tudo, a lógica implacável do metro quadrado.
Racionalizar os custos
Na realidade, cada 10 centímetros extra de altura num edifício representam custos adicionais relevantes em estrutura, fachadas, elevadores, escadas, isolamento e energia para climatização. Não tardou muito até que os profissionais do imobiliário percebessem que o comprador médio preferia ganhar área útil — mais um quarto ou uma varanda — do que metros de ar vazio acima da cabeça.
Altura mínima
Como resultado, a altura mínima legal do pé-direito em Portugal passou a ser de 2,70 metros brutos (cerca de 2,50 metros úteis) nas áreas habitáveis, podendo descer para 2,40 metros em espaços como corredores, instalações sanitárias ou arrumos, conforme o Regulamento Geral das Edificações Urbanas. A maioria dos apartamentos novos fixa-se hoje entre 2,60 e 2,70 metros úteis. É suficiente para circulação confortável e iluminação embutida — mas também o mínimo funcional permitido, o compromisso regulamentar entre conforto e viabilidade económica.
Regresso ao passado?
Curiosamente, a roda parece estar a girar de novo. Nos últimos anos, sobretudo em reabilitações de edifícios antigos e em empreendimentos residenciais premium, voltaram a surgir pés-direitos de 3,20, 3,50 ou até 4 metros. Os arquitetos chamam-lhe “sensação de amplitude”, os agentes imobiliários classificam como “produto diferenciador” — e os compradores descrevem como “finalmente poder respirar”.
Porque, no fundo, o ser humano sempre soube uma coisa: viver numa caixa eficiente com 2,60 metros de altura pode ser suficiente e fazer sentido a nível económico, mas viver sob um teto a 4 metros é outra experiência — quase como passar de uma caixa de sapatos para uma catedral.
É como se as casas antigas nos lembrassem, todos os dias, que já fomos maiores — em muitos sentidos.


