A ideia de cidade está a mudar. E talvez mais depressa do que estamos preparados para admitir.
Durante décadas, o urbanismo contemporâneo ajustou-se a novos paradigmas de mobilidade, sustentabilidade e eficiência. Hoje, muitos dos conceitos inerentes na ideologia “cidade dos 15 minutos”, deixaram de ser exercícios teóricos para se tornarem referências concretas de planeamento urbano: proximidade, diversidade funcional, acessibilidade pedonal e qualidade do espaço público passaram a integrar o discurso dominante sobre a cidade do futuro.
Mas há uma transformação mais silenciosa, menos discutida, que pode revelar-se ainda mais disruptiva: a forma como habitamos.
Portugal vive hoje aquilo que algumas cidades europeias sentiram e sofreram em fases anteriores do seu desenvolvimento urbano . Não se trata de uma exceção, mas de um fenómeno recorrente, que atravessa a história das cidades e se manifesta de forma cíclica. O nosso momento muito particular de acesso à habitação é facilmente identificável pelos preços inacessíveis, escassez de oferta, volume de imigração e pressão turística. No entanto, por detrás desta realidade mais visível, existe uma alteração estrutural no próprio produto imobiliário.
Os edifícios residenciais crescem, mas tornam-se progressivamente mais homogéneos. Multiplicam-se tipologias pequenas, áreas mínimas e modelos repetitivos de ocupação. Onde antes existia diversidade habitacional pensada para diferentes fases de vida, hoje domina uma lógica de maximização financeira e absorção rápida de mercado.
A questão impõe-se: estamos a construir aquilo que as pessoas desejam viver ou apenas aquilo que conseguem comprar?
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, a dimensão média das famílias em Portugal desceu para cerca de 2,1 pessoas. A população envelhece, aumenta o número de pessoas a viver sozinhas e as estruturas familiares tornam-se mais fragmentadas. À primeira vista, estes indicadores parecem justificar a proliferação de T0 e T1.
Mas reduzir a habitação a uma leitura puramente estatística pode ser um erro estratégico. Porque aquilo que está em causa não é apenas o número de quartos por agregado, mas o próprio significado da casa na vida contemporânea.
Ao diminuir continuamente a área das habitações, estamos implicitamente a redefinir a função da casa: deixa de ser espaço de permanência e convivência para se tornar um espaço quase exclusivamente funcional. Dormir. Higienizar. Armazenar. Pouco mais.
Quando a casa encolhe, a vida expande-se para fora.
É aqui que a crise da habitação se cruza diretamente com a cidade do futuro. Se o espaço privado diminui, o espaço coletivo ganha uma importância sem precedentes. A rua, o café, o jardim, a praça ou a biblioteca passam a funcionar como extensões naturais da habitação.
Este modelo não é novo. Reconhecemo-lo em várias cidades europeias onde a vida quotidiana acontece a uma escala pedonal, lenta e próxima. Em Paris, por exemplo, a forte pressão imobiliária levou muitas pessoas a optar por apartamentos mais pequenos em troca de uma relação mais intensa com a cidade. Mas Paris compreendeu algo essencial: quando a habitação diminui, o espaço público tem de aumentar em qualidade. Nos últimos anos, a cidade expandiu ciclovias, criou novos corredores verdes, reduziu o tráfego automóvel e reconquistou as margens do Sena para uso público. Vive-se menos dentro de casa, mas vive-se mais a cidade.
Mas esse modelo exige duas condições fundamentais: qualidade urbana e cultura social.
Apesar da retórica da proximidade e da mistura de usos, continuamos a assistir à proliferação de edifícios exclusivamente residenciais, muitas vezes desligados de comércio, serviços ou espaços públicos qualificados. Crescem bairros-dormitório numa versão c contemporânea: mais densos, mais caros, mas não necessariamente mais urbanos.
Se o futuro aponta para casas mais pequenas, então as cidades têm de ser mais completas.
Mais do que responder ao atual problema na da habitação, trata-se de antecipar uma mudança de paradigma. Porque aquilo que projetamos hoje, edifícios, ruas e bairros, não responde apenas às necessidades do presente. Define, de forma silenciosa, mas duradoura, a maneira como viveremos nas próximas décadas.
Se a casa está a encolher, a cidade não pode falhar.



