Portugal envelhece depressa e o imobiliário ainda não deu por isso.
O debate sobre habitação está concentrado nos jovens e nas primeiras casas. Mas há uma transformação demográfica em curso que devia estar no centro do planeamento imobiliário: o envelhecimento acelerado da população portuguesa.
Há uma certa teimosia em falar de habitação como se estivéssemos todos, para sempre, com trinta e poucos anos, à procura da primeira casa, do primeiro crédito, do primeiro sofá comprado a prestações. É um exercício quase enternecedor de otimismo coletivo. O problema é que os números contam outra história e não é uma história de gente jovem.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o índice de envelhecimento chegou a 192,4 idosos por cada 100 jovens em 2024, quando em 1991 era 72,1. É uma queda a pique. A Pordata confirma o quadro e coloca Portugal em segundo lugar na União Europeia em percentagem de população idosa, empatado apenas com a Itália. Uma medalha de prata da qual ninguém se orgulha.
Mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos e mais de metade são idosos. E aqui está uma oportunidade escondida à vista de todos. Muitas destas pessoas vivem em casas grandes demais, casas do tempo em que os filhos ainda moravam lá, e que hoje exigem manutenção constante, têm custos elevados de aquecimento durante o inverno e não oferecem condições adequadas de segurança, nem de acessibilidade.
Se existisse uma oferta mais ampla de casas pequenas, confortáveis e pensadas para a terceira idade, muitos trocariam de bom grado a casa antiga por uma solução mais simples e funcional, libertando essas habitações maiores para famílias que delas necessitam. Nos Estados Unidos é comum sonhar com uma mudança de vida na idade da reforma, procurando um clima mais ameno, serviços adaptados e convívio entre pessoas da mesma geração. Em Portugal, a mentalidade continua a ser diferente. Ainda encaramos a terceira idade como um fim de linha, quando poderia ser também um recomeço, apenas com outro tipo de casa.
Esta realidade também bate à porta do sistema nacional de saúde. A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados terminou 2024 com cerca de 1.792 utentes em lista de espera, segundo a Entidade Reguladora da Saúde, com assimetrias que chegam aos 134 dias de espera no Algarve. Um país que envelhece a este ritmo e continua a ter filas para cuidados básicos é um país que rema contra a maré.
O que me intriga é a facilidade com que continuamos a planear cidades quase exclusivamente para uma população jovem e homogénea. Construímos habitação para jovens famílias, residências de estudantes (ainda que não ao ritmo desejável), alojamento turístico, unidades hoteleiras, escritórios com vista e com ambiente atrativos e tratamos tudo o resto como um apêndice secundário do imobiliário.
E, no entanto, há aqui um mercado. Não é só uma obrigação social e moral. Faltam em Portugal empreendimentos concebidos de raiz para pessoas mais velhas, casas de tipologia pequena e bem localizadas, residências seniores, modelos de coliving, unidades de cuidados continuados e até hospitais e clínicas de proximidade. É um segmento inteiro de investimento imobiliário por explorar, com procura garantida e crescente. Portugal sabe construir hospitais, sabe construir hotéis, sabe construir universidades. O que falta não é competência, é decisão e políticas de incentivo.
Podemos continuar a fingir que somos um país jovem, mas ignorar o envelhecimento da população deixou de ser um erro de planeamento. É uma escolha política. A demografia não espera por debates ideológicos. E muito menos por planos diretores municipais.



