Leonel Cunha e Silva
Leonel Cunha e Silva
Development Partnerships e Membro do CE da CASAIS Real Estate

A crise da habitação e a perda de competitividade nacional

17/06/2026

A habitação tornou-se uma das maiores preocupações económicas e sociais em Portugal. O aumento acentuado dos preços das casas e das rendas tem colocado uma pressão crescente sobre as famílias portuguesas, especialmente sobre os jovens e os profissionais qualificados, colocando-os, em muitas situações, fora do mercado. Esta realidade não afeta apenas a qualidade de vida da população, mas representa um desafio estrutural para o desenvolvimento do país, contribuindo para a emigração de talento e para a perda de competitividade da economia nacional.

Portugal tem assistido a uma valorização significativa do mercado imobiliário, particularmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e em várias regiões turísticas. Embora essa valorização tenha gerado benefícios para determinados setores, trouxe consequências negativas para uma grande parte da população. Os preços de compra e arrendamento cresceram a um ritmo muito superior ao dos salários, tornando o acesso à habitação cada vez mais difícil.

Para os jovens qualificados, esta situação é particularmente penalizadora. Muitos terminam os seus estudos superiores e deparam-se com uma realidade em que os rendimentos auferidos não são suficientes para suportar os custos de uma habitação independente. Como consequência, milhares permanecem em casa dos pais ou são forçados a partilhar habitação em condições que nem sempre correspondem às suas necessidades.

Perante estas dificuldades, a emigração surge como uma alternativa cada vez mais atrativa. Países como Alemanha, Países Baixos, Irlanda ou Suíça oferecem salários significativamente superiores e maior capacidade de acesso à habitação. Para muitos profissionais, a decisão de emigrar não resulta apenas da procura de melhores oportunidades de carreira, mas também da possibilidade de alcançar uma qualidade de vida que sentem não conseguir obter em Portugal. A saída destes profissionais representa uma perda relevante: o Estado investe recursos significativos na sua formação, mas uma parte considerável desse capital humano acaba por colocar o seu conhecimento e produtividade ao serviço de outras economias.

A crise da habitação tem igualmente impactos diretos na competitividade nacional. As empresas enfrentam dificuldades crescentes para atrair e reter trabalhadores qualificados, sobretudo nas regiões onde os preços são mais elevados. Esta realidade afeta particularmente setores que dependem de talento especializado, como a tecnologia, a engenharia, a investigação científica e os serviços avançados. A escassez de habitação acessível reduz a mobilidade laboral, dificulta a instalação de novos trabalhadores e condiciona a expansão das empresas. Além disso, o elevado custo da habitação reduz o rendimento disponível das famílias, limitando o consumo, a poupança e o investimento, tornando o problema não apenas social, mas também económico.

Não surpreende, por isso, que imigrantes que optaram por se fixar em Portugal estejam agora a abandonar o país ou a deslocar-se para cidades com menor pressão imobiliária. É uma consequência clara da ineficiência das políticas de habitação que se têm verificado ao longo de vários anos.

A resposta a este desafio exige políticas públicas capazes de aumentar a oferta de habitação: disponibilizando novas áreas de expansão articuladas com uma melhoria da oferta de transportes públicos; simplificando processos de licenciamento urbanístico a todas as entidades envolvidas; incentivando a construção e promovendo soluções acessíveis para a classe média e para os jovens, nomeadamente através de contratos programa de habitação e da industrialização da construção. Sem medidas estruturais, Portugal arrisca-se a continuar a perder talento, a reduzir a sua capacidade de atrair investimento e a comprometer o seu potencial de crescimento.

A habitação é hoje muito mais do que uma questão imobiliária. É uma condição essencial para a fixação de população, para a retenção de talento e para a competitividade económica. Garantir o acesso a uma habitação digna e financeiramente sustentável é, por isso, um dos principais desafios para o futuro de Portugal.