José Paraíso
José Paraíso
Vice-Presidente da Região Centro da APEMIP

O invisível, e maior, produtor de dados do mercado

11/02/2026

Fala-se muito de dados no mercado imobiliário. De preços médios, de tendências, de procura aquecida ou arrefecida, de tempos de venda, de zonas “em alta” ou “em perda”.

Fala-se pouco, porém, de uma questão essencial: de onde vêm esses dados e de quem os produz, todos os dias, no terreno.

A mediação imobiliária é, hoje, um dos maiores produtores de informação real sobre o mercado da habitação em Portugal. Não por via de modelos teóricos ou projeções estatísticas, mas através da prática diária: cada imóvel angariado, cada visita realizada, cada proposta apresentada, cada negócio concretizado, ou os que ficam pelo caminho, geram dados. Dados sobre preços efetivos (e não apenas anunciados), sobre capacidade financeira real das famílias, sobre tipologias mais procuradas, sobre tempos médios de venda, sobre comportamentos regionais e assimetrias territoriais.

É uma informação rica, atual, profundamente localizada e continuamente atualizada. E, ainda assim, largamente absorvida pelo mercado sem reconhecimento, sem enquadramento e sem retorno para quem a produz.

Portais, plataformas digitais, estudos de mercado, relatórios sectoriais e até decisões públicas recorrem, direta ou indiretamente, a dados cuja origem está no trabalho dos mediadores imobiliários. Dados que ajudam a “ler” o mercado, a antecipar tendências, a orientar investimento e a moldar perceções públicas sobre a habitação. No entanto, raramente se fala de quem está na base dessa informação. Menos ainda de quem deve participar na definição das regras do seu uso.

Esta realidade levanta uma questão simples, mas estrutural: quem produz valor deve também beneficiar dele.

Não se trata de fechar dados, nem de reduzir a transparência, muito pelo contrário. Trata-se de qualificar o uso da informação, garantir contexto, rigor e responsabilidade.

Dados sem mediação (no verdadeiro sentido da palavra) correm o risco de ser usados de forma simplista, enviesada ou até enganadora, alimentando leituras que não refletem a realidade vivida no terreno. Um preço médio nacional pouco diz sobre a dificuldade concreta de uma família encontrar casa numa cidade média. Um indicador isolado não explica bloqueios de financiamento, falhas de oferta ou constrangimentos urbanísticos.

A mediação imobiliária acrescenta aquilo que nenhum algoritmo consegue substituir: conhecimento humano e territorial. Os números ganham sentido quando acompanhados de experiência. É aqui que o setor deve afirmar-se não apenas como fonte de dados, mas como autoridade informada sobre esses dados.

Num tempo em que se invoca a big data, a inteligência artificial e a automatização como soluções para tudo, convém lembrar uma verdade básica: não há dados de qualidade sem profissionais de qualidade. E não há mercado saudável sem o reconhecimento de quem o sustenta diariamente.

Valorizar a mediação é também valorizar a informação que dela nasce. Criar regras claras, promover parcerias equilibradas, exigir responsabilidade no uso dos dados e reforçar o papel institucional é, deverá ser sempre, uma visão de futuro.

Um futuro onde a mediação não é apenas observada, mas ouvida. Onde não é apenas fonte, mas parte ativa da decisão. Onde os dados servem o mercado, sem desvirtuar quem os gera.

Porque um mercado informado é um mercado mais justo. E uma mediação valorizada é um setor mais forte, mais credível e cada vez mais sustentável.

Está na altura de sabermos usar, também em prol da própria mediação imobiliária, a informação que todos os dias produzimos.