A mediação imobiliária chegou a um ponto de viragem. Num mercado mais maduro, mais informado e mais exigente, já não está em causa saber se a atividade deve ser mais ética e mais profissional. Essa discussão está encerrada.
A verdadeira questão é outra: quem está preparado para esse nível de exigência e quem continuará a tratar a mediação como um negócio circunstancial, de baixo compromisso e responsabilidade mínima.
Durante demasiado tempo, confundiu-se facilidade de entrada com qualidade de serviço. Permitiu-se que a intermediação imobiliária fosse exercida sem critérios claros, sem exigência técnica consistente e, em muitos casos, sem uma cultura ética sólida. O resultado está à vista: os consumidores perdem confiança, existem assimetrias de informação, decisões mal acompanhadas e um setor frequentemente exposto à crítica pública.
Este contexto, apesar de ser problema reputacional, acaba também por ser um risco estrutural.
A mediação imobiliária intervém num dos momentos mais relevantes da vida das pessoas: a compra, a venda ou o arrendamento de uma casa. Quando falha, não falha apenas um negócio; falha um projeto de vida, um investimento familiar, uma decisão que tem impacto económico e social duradouro.
É por isso que a ética e a profissionalização deixaram de ser conceitos aspiracionais. São hoje fatores críticos de credibilidade, diferenciação e sustentabilidade. Não representam custos adicionais nem entraves à atividade. Representam vantagens competitivas claras num mercado que já não tolera improviso, opacidade ou amadorismo.
Num setor mais regulado e mais escrutinado, apenas os profissionais que acrescentam valor real sobrevivem. Valor que se traduz em conhecimento técnico, responsabilidade, transparência e capacidade de acompanhar o cliente antes, durante e depois da transação. O mercado, quando funciona, não prescinde desses profissionais, apenas exclui, de forma natural, quem não cumpre esses critérios.
Importa também clarificar um equívoco recorrente: regular não é travar o setor, nem sufocar a iniciativa privada. Regular é qualificar. É criar regras claras que protegem os consumidores, promovem concorrência leal e dão previsibilidade a quem exerce a atividade de forma séria. A ausência de regras não gera liberdade; gera desigualdade, informalidade e desconfiança.
A digitalização e a tecnologia são ferramentas essenciais, mas não substituem o papel humano da mediação. Algoritmos não explicam riscos jurídicos, não alinham expectativas, não assumem responsabilidade.
O futuro da mediação imobiliária não será definido por quem promete mais rápido ou mais barato. Será definido por quem consegue ser mais competente, mais ético e mais responsável. Não por imposição, mas por necessidade. Porque num mercado sensível como o da habitação, a confiança não é opcional. É o ativo central.
E essa confiança só se constrói de uma forma: com profissionais à altura da responsabilidade que assumem.



