Paulo Lopes
Paulo Lopes
Vice-Presidente da Região Sul da APEMIP

O mercado imobiliário português entrou numa nova fase

11/03/2026

Depois de dois anos marcados por crescimentos expressivos, o mercado imobiliário português começa a revelar sinais de transição. Não se trata de uma inversão de ciclo, muito menos de um abrandamento abrupto. Trata-se, antes, de uma fase de maturidade: um ajuste natural de um setor que cresceu rapidamente, que ganhou visibilidade internacional e que passou a ser analisado com maior exigência e escrutínio.

Os números ajudam a enquadrar esta nova etapa. Portugal liderou a valorização residencial na Europa nos últimos dois anos, com aumentos de 11,5% em 2024 e superiores a 15% em 2025. Para 2026 projeta-se uma subida mais moderada, próxima dos 7%, com um abrandamento gradual para valores entre 5% e 5,5% nos anos seguintes. Ainda assim, tudo indica que o país continuará entre os mercados imobiliários com maior crescimento na Europa até ao final da década.

Este abrandamento não deve ser encarado como um problema. Pelo contrário, pode ser interpretado como um sinal saudável. Mercados que crescem de forma consistente precisam, em determinado momento, de estabilizar ritmos e consolidar fundamentos. E, no caso português, esses fundamentos continuam sólidos.

O primeiro é estrutural: a escassez de oferta. Durante décadas construiu-se menos do que aquilo que o mercado absorve. Hoje, por cada seis casas vendidas, apenas uma é concluída, o que revela um desequilíbrio profundo entre procura e nova produção habitacional. Este desfasamento não se resolve num ou dois anos e continuará a influenciar a evolução dos preços.

O segundo fundamento é a própria dinâmica social. Apesar do envelhecimento da população europeia, o número de agregados familiares continua a crescer mais rapidamente do que a população total. Famílias mais pequenas, maior mobilidade profissional e novas formas de viver e trabalhar aumentam a necessidade de unidades habitacionais. O resultado é uma procura estruturalmente forte, que não depende apenas de ciclos económicos ou de investimento internacional.

Contudo, há um desafio que não pode ser ignorado. Portugal surge hoje entre os mercados considerados mais sobrevalorizados da Europa, sobretudo quando se analisa a relação entre preços da habitação e rendimentos das famílias. A acessibilidade tornou-se um dos temas centrais do debate público e económico. Não existem, para já, sinais claros de correção, mas há um alerta evidente: sem um aumento significativo da oferta, o equilíbrio do mercado poderá tornar-se progressivamente mais frágil.

Paralelamente, o investimento imobiliário continua a demonstrar confiança no país. Em 2025 atingiu cerca de 2,8 mil milhões de euros, um crescimento de 22% face ao ano anterior e acima da média da última década. Escritórios, retalho e hotelaria concentraram a maior parte do capital, refletindo a atratividade de Portugal enquanto destino económico e turístico.

Outro fenómeno relevante é a crescente descentralização do mercado. Durante muitos anos, a dinâmica imobiliária concentrou-se sobretudo em Lisboa e no Porto. Hoje, capitais de distrito e regiões menos centrais registam valorizações muito significativas, demonstrando que o mercado se tornou verdadeiramente nacional e que novas geografias começam a ganhar protagonismo.

Esta nova fase exige, por isso, uma visão mais estratégica. O crescimento do setor não pode continuar a assentar apenas na valorização de ativos. Precisa de ser acompanhado por mais construção, maior eficiência regulatória, processos de licenciamento mais céleres e um equilíbrio mais sustentável entre investimento e acessibilidade.