No dia 29 de setembro, o Grupo Casais e a Câmara Municipal de Guimarães lançaram a primeira pedra de um edifício com 75 habitações para arrendamento acessível, ao abrigo do programa 1.º Direito. A obra tem um prazo de apenas 359 dias, graças à construção industrializada: sistema CREE, estrutura híbrida de madeira e betão, pré-fabricação off-site e metodologia BIM. Resultado: menos 40% de betão e menos 70% de resíduos. O edifício já tem uma pré-avaliação LiderA de classe A.
É de soluções assim que o país precisa. Pensemos num casal jovem, sem filhos, com rendimento mediano nacional. Segundo o INE (rendimentos de 2024), ganha cerca de 21.700 euros líquidos por ano, ou 1.808 euros por mês. Com uma taxa de esforço de 35%, pode pagar uma renda até 633 euros por mês (7.600 euros por ano). Ao valor mediano dos novos contratos no 2.º trimestre de 2026, este montante arrenda 62 m² no país e apenas 42 m² na Grande Lisboa. Um T2 de 80 m² custa, em média, 814 euros por mês; em Lisboa, 1.219 euros.
Para comprar casa, a mesma prestação de 633 euros permite um empréstimo de cerca de 177 mil euros, a 40 anos, com juros de 3% (agosto de 2026). Com 10% de entrada (quase 20 mil euros de poupança), dá para uma casa até 196 mil euros. Aos preços medianos dos 12 meses até março de 2026, isso compra 56 m² no Porto e apenas 39 m² em Lisboa.
Cruzando estes valores com a distribuição de rendimentos do INE, cerca de 70% dos agregados não conseguem suportar a renda mediana de um T2 sem ultrapassar uma taxa de esforço sustentável. Mesmo com a subida salarial desde 2024 (cerca de 11%), são mais de 60%. Na Grande Lisboa, são 88%. Na compra de um T2 ao preço mediano, ficam de fora 75% no Porto e 91% em Lisboa. O problema já não é só dos mais vulneráveis: é da classe média. Falamos de professores, enfermeiros, jovens engenheiros, técnicos especializados ou polícias que trabalham nas cidades onde já não conseguem viver.
O Banco de Portugal estima um défice acumulado de 300 mil fogos ao logo da última década. Os preços subiram 16,5% no último ano, a maior subida da União Europeia, e os juros voltaram a aumentar. A habitação pública e cooperativa representa menos de 3% das casas do país, contra cerca de 20% nos países nórdicos.
O Orçamento do Estado para 2027 prevê cerca de 2.000 milhões de euros para habitação acessível e baixa o IVA da construção para 6%, apenas nos casos previstos. A Comissão Europeia, com o seu Plano de Habitação Acessível, já mobilizou 43 mil milhões de euros e vai facilitar os auxílios de Estado. São meios importantes, mas não bastam. A 150-200 mil euros por habitação pública nova, os 2.000 milhões do OE dão para 10 a 13 mil casas, menos de 5% do défice acumulado de 300.000 fogos.
Estes fundos devem ser a base de uma estratégia, não um fim em si mesmos. Precisamos de aumentar a oferta de habitação acessível, mobilizando os recursos públicos, os terrenos do Estado e dos municípios e a capacidade de investimento e de execução do setor privado. A construção industrializada permite ganhar escala, reduzir prazos e aumentar a produtividade. Para isso, são necessários programas estáveis, um licenciamento mais rápido e parcerias duradouras entre o Estado, os municípios e os promotores.
A urgência está à vista. Vê-se nas manifestações pelo direito à habitação, nas empresas que não conseguem fixar talento e nos serviços públicos que não atraem profissionais para onde fazem falta. Projetos como o que está agora a arrancar em Guimarães demonstram que já existem soluções capazes de acelerar a produção de habitação com qualidade e menor impacto ambiental. Falta transformá-las numa política à escala do país.



