Centros comerciais sofreram impacto acrescido

24/06/2020
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Em entrevista ao Público Imobiliário, António Sampaio de Mattos, presidente da APCC- Associação Portuguesa de Centros Comerciais, diz que é ainda prematuro falar em números concretos e que muito dependerá de como evoluir a retoma da economia.

É ainda prematuro quantificar o impacto que a pandemia despoletada pela Covid-19 vá ter na indústria dos centros comerciais. Em todo o caso, António Sampaio de Mattos, presidente da APCC- Associação Portuguesa de Centros Comerciais, diz que é possível identificar desde já um impacto na ordem dos 305 milhões de euros, só em 2020, devido aos apoios concedidos pelos centros comerciais aos lojistas. “Existe também um valor relevante de investimentos adicionais na preparação dos centros comerciais para operarem neste contexto de pandemia nas melhores condições de higiene e segurança. E não nos podemos esquecer do impacto que a diminuição de receitas e aumento de custos tem na avaliação dos ativos”.

Tudo isto, diz Sampaio de Mattos, são “muitas centenas de milhões de euros” e um enorme desafio que se coloca a um setor que, importa sublinhar, emprega mais de 100 mil pessoas de forma direta e 200 mil de forma indireta. “Naturalmente, a indústria dos centros comerciais sofreu um impacto acrescido por não ter tido a oportunidade de operar sem limitações ao mesmo tempo que outros sectores da economia”.

A reabertura integral destes espaços aconteceu apenas na última fase do plano de desconfinamento, e, no caso dos centros da Área Metropolitana de Lisboa (AML), que concentra 35% dos centros do país, que asseguram 50% do emprego total gerado pelo sector a nível nacional, foi adiada por mais duas semanas, para 15 de junho. “A nosso ver, esse constrangimento podia ter sido evitado sem colocar em causa a segurança de visitantes e funcionários as lojas. Os associados da APCC, que integram 8.600 lojas e que representam mais de 90% da área bruta locável total existente em Portugal, estavam preparados para operar sem limitações, e com total garantia de segurança, desde o dia 18 de maio”.

O presidente adiantou que os associados da APCC já partilharam com o Governo que medidas entendem que devem ser tomadas de modo a permitir mitigar as consequências deste período excecional e a criar condições para um retorno à normalidade tão breve quanto possível.

É preciso retomar a confiança

Questionado sobre quais os grandes desafios que os associados da APCC têm agora pela frente, Sampaio de Mattos diz que que “lista é extensa”. No entanto escolheu o que lhe parece mais estrutural e determinante para que possam ser superadas as dificuldades que este contexto impôs, “com o mesmo sucesso com que ultrapassámos as da última grande crise: a confiança”. A confiança a que Sampaio de Mattos se refere é a dos visitantes na segurança dos centros comerciais e na retoma da economia, assim como a confiança entre proprietários, operadores e lojistas. “É muito importante que os cidadãos tenham (e podem ter!) confiança e tranquilidade absolutas no uso dos centros comerciais e das lojas que aí operam, com a certeza de que são cumpridas todas as regras de segurança sanitária decorrentes da lei, as recomendações da Direcção-Geral da Saúde e as melhores práticas promovidas pela indústria a nível global”. A par disso, continua o presidente, os visitantes têm tido, no seu entender, um comportamento irrepreensível. “Embora seja demasiado cedo para fazer um balanço, os indicadores destas primeiras semanas são animadores, mas temos um caminho a fazer para chegar aos níveis de compra pré-pandemia e teremos comportamentos diferentes em áreas de atividade distintas. É imprescindível que a confiança continue a crescer e que esta tendência continue a evoluir”.

Por outro lado, e no que respeita à relação entre operadores e lojistas, os números que a APCC têm para apresentar são, para o presidente, uma boa forma de explicar a importância que a confiança tem para potenciar o contributo que o setor pode dar à preservação do emprego e à retoma da economia. “A relação próxima, de diálogo e cooperação, que centros comerciais e lojistas têm assumido permitiu ter já de portas abertas, e em absoluto respeito pelas regras de segurança, 8483 lojas, que correspondem a 99% das 8 600 lojas presentes nos centros comerciais dos associados da APCC, e, como referi anteriormente, chegar a acordo para a concessão de apoios no valor de 305 milhões de euros durante 2020, entre descontos e moratórias de rendas, que vão para além da ‘lei das moratórias’ e que permitem diferir o pagamento destas mensalidades para 2021 e 2022. Estes resultados só foram possíveis com confiança entre as partes. É a confiança que vai determinar o sucesso de um caminho que estamos agora a iniciar”.

A APCC representa um setor com 35 anos de história “e de experiência consolidada em Portugal”, considerado “um exemplo a nível internacional”. Nomeadamente, “temos a experiência recente de ter ultrapassado a complexa crise de 2010-2012”, reiterou Sampaio de Mattos.

Canal direto com Governo

Desde a primeira hora deste contexto de pandemia, a APCC estabeleceu um canal de comunicação direto e permanente com o Governo. “No Plano de Estabilização Económica e Social (PEES), apresentado pelo executivo, a APCC destaca, pela positiva, o apoio à retoma da atividade empresarial; as Linhas de apoio ao Comércio; a alteração das regras do Pagamento Especial por Conta, isentando as empresas com quebras de faturação superiores a 40%, que é de extrema importância para a tesouraria, especialmente nas empresas de comércio e restauração; as alterações ao regime de lay-off; a criação do Banco de Fomento; e a extensão do regime de moratórias bancárias até 31 de março de 2021 para crédito hipotecário”.

A associação continua, entretanto, a aguardar por outras medidas que consideram imprescindíveis como complemento a estas, nomeadamente no apoio direto e rápido aos retalhistas por parte do Estado. “Estas medidas, em conjunto com os apoios já concedidos pelos associados da APCC aos seus lojistas, irão permitir aos centros comerciais manter-se os espaços preferidos dos portugueses e dos turistas para compras e lazer, e, ao mesmo tempo, alavancar a recuperação económica.”