Gavin Swartzman: "O luxo é cada vez mais sobre estilo de vida, não sobre estatuto"

08/07/2026
Gavin Swartzman: "O luxo é cada vez mais sobre estilo de vida, não sobre estatuto"

Assumiu a liderança global da Christie's International Real Estate há cerca de um ano, num contexto de forte consolidação no setor — incluindo a integração da marca na Compass. Que mudanças estratégicas já implementou?

Quando entrei, vi a ligação com a Compass como uma enorme vantagem. Ter acesso aos seus recursos – especialmente em tecnologia – ajudaria os nossos afiliados a acelerar o crescimento no futuro. E olho para a consolidação no setor como uma oportunidade: grande parte do que está a acontecer situa-se ao nível do mercado médio, o que cria maior diferenciação para as marcas de luxo. Com a Christie's International Real Estate, temos uma marca reconhecida globalmente em termos de profissionalismo, luxo e confiança. O que costumo dizer às pessoas da indústria é que tendem a pensar que as marcas são relativamente iguais – mas se pensarmos no consumidor, há muito poucas que têm o reconhecimento global que a Christie's tem. Isso tornar-se-á cada vez mais valioso.

O mercado de luxo tem mostrado grande resiliência mesmo em períodos de abrandamento económico generalizado. Que fatores explicam esta descorrelação entre o segmento premium e o mercado residencial tradicional?

O que impulsiona o segmento de luxo tem muito mais a ver com o sentimento e com o que motiva as pessoas do que com o mercado mais amplo, que é muito mais influenciado por indicadores económicos de curto prazo. Quando as taxas de juro sobem, isso afeta a velocidade das transações no mercado geral – mas no topo, as pessoas têm a flexibilidade de agir com convicção quando sentem que o momento é o certo para elas.

Através do nosso estudo global anual sobre o mercado imobiliário de luxo, e do Prime Sentiment Index, que analisa os fatores que impulsionam o comportamento dos compradores, o que temos verificado é que as decisões são cada vez mais tomadas com base na forma como o imobiliário se encaixa no estilo de vida. Procuram lugares que reflitam aquilo por que são apaixonadas, onde se sintam seguras, propriedades que possam tornar-se lares multigeracionais. E esses lugares já não são necessariamente os mercados de troféu tradicionais. Portugal é um ótimo exemplo – as pessoas estão a descobrir destinos alternativos que se adequam melhor aos seus estilos de vida.

Segundo dados da Porta da Frente Christie's, Lisboa e Cascais representam já mais de 26% da oferta europeia analisada pela rede, com Cascais a superar Londres e Madrid. Como interpreta este protagonismo de Portugal?

Acho que é um indicador do que tem acontecido nos últimos anos: Portugal tornou-se um destino extremamente popular em mercados onde talvez não o fosse antes. Posso falar como canadiano que faz muito negócio com pessoas nos Estados Unidos – sempre que digo que vou a Portugal, a reação é entusiasta. Reflete o facto de Portugal ter realmente conquistado o seu lugar. Já não é um destino desconhecido, e por todas as razões certas: oferece relativamente bom valor, as pessoas sentem-se seguras e os portugueses são fantásticos.

Esta é a primeira vez que a Owners Conference se realiza em Portugal. O que pesou nesta escolha?

A primeira coisa que fazemos ao escolher um local é selecionar um lugar onde os afiliados queiram ir e desfrutar. Analisamos a acessibilidade, o afiliado local – que transforma uma conferência global em algo muito mais pessoal – as instalações e o que as pessoas podem fazer no tempo livre. Assim que anunciámos Lisboa, todos ficaram entusiasmados. Tivemos enorme participação dos EUA, mas também pessoas da Nova Zelândia, Austrália e muitos outros lugares que estavam genuinamente felizes por estar aqui. Durante o evento, as pessoas participam nas sessões e depois dispersam-se pela cidade. Toda a gente encontra algo que aprecia. Lisboa apresentou-se extremamente bem aos nossos afiliados, que tiveram uma experiência maravilhosa.

Que perfil tem o comprador internacional que mais tem procurado Portugal através da Christie's? Que alterações se verificaram nos últimos anos?

Portugal tornou-se um mercado verdadeiramente internacional. Os compradores estão cada vez mais motivados pelo estilo de vida e não apenas pelo investimento – procuram segurança, qualidade de vida, experiências autênticas e destinos onde possam passar tempo com a família ao longo de gerações. Portugal oferece uma combinação muito atraente: é relativamente acessível comparado com muitos mercados de luxo estabelecidos, com uma vasta gama de propriedades e localizações.

Historicamente, temos visto uma forte procura por parte de norte-americanos e europeus, e isso continua. O interesse asiático foi mais acentuado durante os anos do Golden Visa, especialmente de compradores chineses, mas a procura atual é muito mais ampla e orientada para o lifestyle do que para políticas. Em termos demográficos, estamos também a ver compradores que ainda estão a criar riqueza e não apenas reformados. Pensam menos em ter uma propriedade-troféu e mais em pertencer a um lugar que reflita os seus valores.

Que tendências globais estão a moldar as decisões de compra no segmento de luxo?

Uma das maiores mudanças é que o luxo está a tornar-se muito mais sobre estilo de vida do que sobre estatuto. As pessoas já não procuram apenas um endereço prestigiado, procuram lugares onde realmente queiram viver e onde sintam que pertencem. A segurança tornou-se também um fator crescente: face à instabilidade geopolítica, muitos compradores procuram destinos que ofereçam estabilidade e tranquilidade. E a experiência ganhou um peso que vai além do imóvel em si – as pessoas querem comunidades que reflitam as suas personalidades. A localização continua crítica, mas cada vez mais as pessoas olham para além dos mercados de troféu tradicionais para encontrar destinos que se alinhem com os seus valores e forma de viver.

Há cada vez mais sobreposição entre imobiliário de luxo e lifestyle (hotelaria, gastronomia, bem-estar). Como está a Christie’s International Real Estate a adaptar-se a esta procura por experiências e não apenas por imóveis?

Ao longo da conferência, tivemos vários oradores e painéis a discutir exatamente este tema. Uma das discussões focou-se no novo desenvolvimento, e o que estamos a ver é que o lifestyle está cada vez mais refletido tanto nas comodidades oferecidas pelos promotores como na forma como as propriedades são desenhadas e comercializadas.

As pessoas olham para o que esse estilo de vida proporciona, além do imóvel em si. Em muitos casos, esses elementos de lifestyle estão a tornar-se um driver de decisão de compra mais importante do que o tamanho dos quartos ou os acabamentos da propriedade. Uma grande parte do que estamos a fazer é ligar-nos a outras marcas de luxo e parceiros que já servem este tipo de consumidores.