Carlos Suaréz
Carlos Suaréz
Diretor-Adjunto, Victoria Seguros

Digitalização e BIM… será a Solução para todos os nossos problemas?

13/04/2022

Desde a industrialização da construção, até à simplificação do licenciamento urbano, foram muitos os temas interessantes tratados ao longo de três dias de debate, frequentemente com base na transformação digital dos processos, mormente na utilização do BIM (Building Information Modelling).

É, precisamente, a eventual adoção transversal deste tipo de soluções de software o que me leva hoje a refletir sobre o os riscos que o BIM poderia ter no setor da arquitetura, engenharia e construção, desde o ponto de vista segurador. Uma definição de BIM poderia ser a seguinte: ferramenta tecnológica integrada, concebida com o propósito de construir um modelo digital tridimensional dos aspetos físicos e funcionais duma edificação, desde a conceição até à execução. Utilizada por todos os intervenientes no projeto, o BIM permite a construção virtual dum edifício utilizando dados reais.

Por outro lado, fala-se dos diferentes patamares de maturidade em relação à utilização do BIM, em função do nível de integração colaborativa dos intervenientes no projeto de construção da edificação. Assim, o nível 0 corresponde aos projetos sem colaboração efetiva, baseados em informações com representação bidimensional, partilhadas em formatos físicos ou ficheiros. Já o nível 1 diz respeito a projetos que incluem informação tridimensional e partilha eletrónica de dados num ambiente comum de trabalho. Pela sua vez, o BIM nível 2 carateriza-se pelo trabalho colaborativo e requer um processo coordenado de partilha de informação específico para o projeto. Finalmente, o nível 3 preconiza a implementação de medidas conducentes à partilha transversal de informação com o mercado, assegurando consistência, transparência e trabalho cooperativo aberto.

À primeira vista, a partilha de informação de todos os elementos inerentes ao desenvolvimento dum projeto imobiliário num modelo que permite a visualização desde diferentes perspetivas e a melhoria da comunicação entre os vários partícipes do processo construtivo, deverá conduzir a uma diminuição dos erros em todas as fases do mesmo. Estou a pensar, especificamente, na deteção de problemas ou eventos que, sem o BIM, apenas seriam identificados durante e/ou após a execução dos trabalhos de construção da edificação.

No entanto, poder-se-á perceber que a aplicação dum software BIM carece da implementação de novas formas e capacidades de trabalho colaborativo e, sobretudo, da coordenação e gestão do conhecimento produzido pelos diferentes utilizadores, frequentemente em diferentes sistemas. Não pareceria recomendável, então, institucionalizar a figura dum gestor BIM, delimitando as suas responsabilidades e cruzando-as com as dos restantes intervenientes que acordam partilhar os seus respetivos erros e omissões, incluindo aqui a responsabilidade do “fabricante” do software?

Por outra parte, os distintos níveis de maturidade na utilização das ferramentas BIM poderão significar preocupação com a falta de formação e experiência dos múltiplos intervenientes no processo construtivo ou, então, com os diferentes níveis de compreensão dos modelos de informação, o que, paradoxalmente, poderá conduzir a novos erros. Nesse sentido, poderão estar em causa as respetivas responsabilidades profissionais, nomeadamente nos níveis mais avançados de utilização do BIM, onde será possível (e até desejável) realizar alterações ao projeto, durante o seu ciclo de vida?

Finalmente, dever-se-ia pensar de forma específica no risco das perdas derivadas do mau funcionamento do software, seja pela corrupção das bases de dados (perda e recuperação de documentos), seja pelos ataques propositados (risco cibernético), seja pela utilização de diferentes versões da ferramenta base (interoperabilidade)?

A tendência crescente na utilização das ferramentas BIM – independentemente do seu nível de maturidade – exige uma reflexão sobre os riscos e coberturas adequadas ao novo (e futuro) paradigma da construção de edifícios. Como é habitual na indústria seguradora, a experiência de sinistralidade irá alterar a compreensão real dos riscos inerentes ao BIM, mas, até lá, penso que se impõe uma ponderação serena sobre os mesmos.