Francisco Campilho
Francisco Campilho
Diretor Geral Adjunto da Victoria Seguros

O que fica de 2021

15/12/2021

O valor dos imóveis. Como noticiava recentemente o Público, os custos de construção de habitação nova registaram um aumento face ao período homologo superior a 7% no passado mês de outubro. Na origem deste crescimento estão não só a escassez de materiais e os problemas logísticos das cadeias de distribuição, mas também a falta de mão-de-obra. Estes constrangimentos deveriam melhorar nos próximos meses permitindo afastar os receios de inflação. No entanto, não haver tendências inflacionistas a prazo, como nos repetem os responsáveis dos bancos centrais, não quer necessariamente dizer que os preços venham a ajustar em baixa. Efeitos como a implementação em simultâneo dos vários planos de recuperação e resiliência nos vários países da Europa permitem antecipar a continuação de alguma tensão pelo menos durante o próximo ano. Esta situação vai com certeza contribuir para a manutenção do valor do imobiliário durante os próximos meses. Para tal contribuirá também a evolução das taxas de juro que, apesar de alguma recuperação ou volatilidade nos últimos meses, se deverão manter em níveis historicamente baixos. Estes níveis de taxas permitem manter o crescimento do crédito à habitação, bem como o financiamento de projetos e promoção imobiliária.

A localização. A evolução da localização vai continuar no próximo ano, apoiada por tendências como a do teletrabalho ou o envelhecimento da população. As casas do Monopólio vão com certeza mudar em edições futuras refletindo uma nova valorização da proximidade, do encontro com a natureza, do tempo de transporte, … A transição climática e as políticas de investimento ESG que muitos investidores institucionais irão adotar, favorecem também esta alteração da perceção de qualidade exigida de uma forma holística. É interessante notar a atenção que recentemente tem sido dada à eficiência energética, desde a discussão sobre a razão pela qual as casas em Portugal são frias, aos programas e apoios públicos à renovação das caixilharias, por exemplo. As questões da mobilidade nos acessos e dentro da cidade vão continuar a estar na ordem do dia contribuindo para as decisões e opções de localização de empresas e escritórios, mas também das habitações. A evolução dos transportes públicos na sua cobertura e extensão dentro do perímetro de uma área metropolitana, será com certeza um dos temas prioritários a discutir e implementar. Apesar da evolução recente de deslocalização do centro para as periferias, o poder de atração da cidade está longe de ter acabado. Penso que estamos a assistir a uma alteração da configuração da cidade com uma tendência de alargamento do seu perímetro, mantendo assim uma tendência que se iniciou há alguns anos.

Estes serão dois dos grandes temas que prometem um ano de 2022 repleto de acontecimentos no setor da construção e no imobiliário. Não deveremos, contudo, deixar de estar atentos à evolução demográfica, ao risco pandémico, aos primeiros passos do 5G no nosso país ou à criação de um sistema de proteção de riscos catastróficos, assuntos a que de certeza voltarei no próximo ano.