Francisco Campilho
Francisco Campilho
Administrador-Delegado da VICTORIA Seguros

O que fica de 2022

14/12/2022

O assunto incontornável foi o dos preços do imobiliário. Esta é sem dúvida a questão que, mesmo em tempos considerados normais, mais tinta faz correr. Em 2022, a discussão sobre a previsibilidade dos preços do imobiliário foi uma discussão a nível global, até porque, apesar das diferenças entre blocos económicos, acaba por haver um alinhamento das grandes tendências. Deste modo, à medida que as perturbações nas cadeias logísticas dos materiais de construção permaneceram, agravadas pela política de covid-zero seguida na China, o retorno da inflação tornava-se menos passageiro, com o consequente acelerar das subidas de taxas de juro por parte dos bancos centrais, um dos maiores impactos na valorização das várias classes de ativos financeiros ou reais.

Um tema incontornável do ano é a guerra na Ucrânia, e os seus efeitos geoestratégicos nas políticas energéticas, que veio intensificar a necessidade de aceleração da adoção de energias de fonte renovável. E a sustentabilidade dos imóveis e de todo o setor imobiliário, da promoção à construção passando pelo financiamento, ganharam uma enorme visibilidade. Os objetivos de redução dos Gases com efeito de Estufa estabelecidos para os próximos anos são ambiciosos e exigem que a alteração energética seja implantada em larga escala. Isto implica, para além da utilização de energias renováveis, o redesenho do próprio processo de construção e dos materiais utilizados, procurando ao mesmo tempo melhorar a sustentabilidade energética dos edifícios. Em Portugal, a discussão sobre a “pobreza energética” das habitações tornou-se um assunto de primeira importância e de intervenção no sentido de reduzir o impacto da fatura energética no orçamento das famílias.

Um outro tema, suscitado pela publicação dos dados do Censos 2021, é o do quadro demográfico do nosso país. As projeções feitas para o envelhecimento da população deverão traduzir-se na necessidade de revisão da forma como é atualmente organizada a vida e a residência dos mais velhos. As cidades terão de integrar todas as etapas da vida, permitindo a transição entre as diversas formas de habitação. Uma cidade organizada por forma a garantir a autonomia, mas também o acesso aos cuidados de saúde, torna-se uma exigência a que teremos de responder nos próximos tempos. Por outro lado, uma cidade que permita tornar próximos e acessíveis os equipamentos escolares, comerciais, culturais e de trabalho será também uma cidade onde será mais fácil viver e constituir uma família.

Estes temas não se conseguem esgotar no período de doze meses e serão também aqueles que vão marcar o decurso dos próximos tempos. A capacidade de resposta a todos estes desafios é não só do setor da promoção e investimento imobiliário, mas de todos nós, nomeadamente da atividade seguradora e as propostas de solução de gestão dos vários riscos identificados. O tema das falhas de proteção, ou protection gaps, será um dos assuntos a que voltarei no ano próximo ano.