Não basta haver financiamento, projetos ou ambição, é indispensável capacitar o setor com profissionais qualificados para que os objetivos traçados sejam, efetivamente, concretizáveis. A taxa de execução financeira do PRR é indiciadora das dificuldades e constrangimentos estruturais que persistem. Os dados mais recentes revelam uma execução financeira particularmente preocupante em áreas estratégicas como a habitação, a eficiência energética dos edifícios e a mobilidade sustentável. A própria componente de infraestruturas, apesar de estar mais avançada, continua aquém do necessário.
É neste cenário que os Centros Protocolares de Formação Profissional – o CICCOPN e o CENFIC – assumem um papel determinante. Estes centros foram concebidos para apoiar as empresas, alinhar a formação com as necessidades reais do mercado, e capacitar os profissionais para os novos desafios tecnológicos e ambientais. É fundamental que esta missão seja reforçada, visto que, sem trabalhadores qualificados em número suficiente, o país corre o risco de falhar metas que são críticas para o seu futuro.
O setor da construção e do imobiliário caminha para uma revolução tecnológica. A construção modular, ou off-site, o uso de BIM, realidade aumentada e novos materiais como o aço leve e bioplásticos exigem novas competências. Estas abordagens otimizam prazos, reduzem custos e melhoram a eficiência energética dos edifícios, contudo dependem de profissionais devidamente qualificados. Assim, é essencial investir numa formação alinhada com estes novos paradigmas.
Além disso, continuam a faltar mais de 80.000 profissionais no setor e esta carência abrange desde serventes e pedreiros até engenheiros e técnicos especializados. Com cerca de 350 mil pessoas inscritas nos centros de emprego, é urgente alinhar a oferta formativa com a procura real das empresas, através da dinamização dos Centros Protocolares de Formação Profissional para a Construção e da aposta em programas práticos que envolvam também os imigrantes, essenciais para colmatar as carências do setor.
A assinatura do Protocolo de Cooperação para a Migração Laboral Regulada com o Governo, formalizada ontem, representa um passo decisivo na construção de uma resposta articulada e sustentável à crescente escassez de mão de obra no setor da construção. Este instrumento visa reforçar os mecanismos de entrada regular e célere de trabalhadores estrangeiros, assegurando simultaneamente a sua integração digna e eficaz, através da criação de oportunidades de formação profissional, de aprendizagem da língua portuguesa e de acesso a condições de alojamento adequadas. É, assim, uma medida estruturante que alia responsabilidade social e visão estratégica, promovendo o equilíbrio entre as necessidades do mercado e os princípios de inclusão e coesão social.
Sem trabalhadores preparados, não há PRR, não há Portugal 2030, não há habitação acessível. A capacitação dos recursos humanos não é uma opção. É uma condição indispensável para o desenvolvimento. É tempo de agir.