Patrícia de Melo e Liz
Patrícia de Melo e Liz
CEO da Savills Portugal

Mercado vai retomando a sua atividade

25/07/2020

As mudanças pautadas por novas rotinas estão a influenciar os nossos hábitos diários, mas também a moldar a forma como daqui para a frente iremos vivenciar experiências, de consumo e lazer, ou como iremos ocupar os vários espaços físicos.

O local de trabalho, a ida ao centro comercial, a reorganização do nosso espaço em casa para acomodar o teletrabalho, são alterações a modos de vivência transversais a todos nós e numa escala internacional.

Desta forma o setor imobiliário é, sem sombra de dúvida, um dos mais afetados pelos efeitos da pandemia Covid-19. Acrescentando o elevado grau de incerteza subjacente à previsão para a descoberta de uma vacina eficaz. Ainda assim, à medida que as medidas de confinamento vão sendo levantadas e o tráfego aéreo vai sendo restabelecido, o mercado imobiliário vai retomando a sua atividade e ganhando mais positivismo.

Há no entanto que fazer a distinção desta crise com a crise Global Financeira de 2008 que afetou fortemente o imobiliário, pois a liquidez financeira não desapareceu com a pandemia, simplesmente deixou momentaneamente de circular. As intenções de investimento mantêm-se sustentadas pela manutenção de market fundamentals fortes e sólidos. Não podemos deixar de mencionar que a ação interventiva rápida e eficaz do Estado português de combate à Covid-19, tem sido muito elogiada e reconhecida por várias entidades, organismos e publicações internacionais, conferindo a Portugal um selo de porto seguro. De resto esperamos que assim continue mesmo após os reveses (situação pandémica da grande Lisboa após o confinamento) que ao meu ver têm razões concretas que não têm sido assistidas da devida análise, nem da devida comunicação. A titulo de exemplo destaco a falta de planeamento na oferta adequada de transportes públicos, que ao invés de ser incrementada, mantém-se menor do que a existente em situação de normalidade.

A atividade transacional deverá retomar gradualmente o seu ritmo na 2ª metade do ano e voltar a observar um crescimento mais estável em 2021. Com particular resistência à retoma por parte de setores que estão a ser mais atingidos e que irão demorar mais tempo a recuperar das consequências do Estado de Emergência.

Os segmentos de retalho e hotéis, altamente dependentes dos consumidores e da atividade turística, vivem tempos complicados e que exigem uma intervenção de apoio do Estado, mas também de reinvenção dos próprios modelos de negócio em nome da sua sobrevivência.

O segmento de escritórios, que emitiu os primeiros sinais de impacto no mês de maio, continuará a ser encarado com um setor resiliente e atrativo para os investidores, especialmente os ativos prime. Apesar do teletrabalho ter demonstrado resultados de sucesso e vários estudos realizados terem concluído que uma larga percentagem de trabalhadores gostaria de continuar neste regime, também declararam na sua maioria preferirem fazê-lo de forma parcial (trabalhar remotamente 1 a 2 dias por semana), logo os espaços de escritórios estão longe de desaparecer. A experiência humana, a interação social, a troca de opiniões, as sessões de brainstorming, o café na copa com os colegas, são momentos que não podem ser replicados por nenhuma ferramenta digital e verdadeiramente fundamentais para a criação da desejável forma anímica, o sucesso dos negócios e alcance de objetivos de qualquer empresa. Ainda assim é importante percebermos como o teletrabalho irá impactar as estratégias de ocupação das empresas e como os espaços de escritórios se vão adaptar para responder de forma eficaz, criativa e positiva a esta alteração de paradigma.

Também o mercado residencial não passa imune às transformações causadas pela Covid-19, transformações essas que encontram expressão para além do modo de trabalhar (ex: ter um espaço de trabalho consolidado em casa) nos hábitos de consumo, nas condições financeiras de muitos e perspetivas futuras de vida. De forma mais gritante no que toca à geração millennials e futuras gerações que irão entrar no mercado de trabalho, que tendencialmente já colocavam em primeiro plano fatores como mobilidade e flexibilidade e que irão conduzir ao surgimento de novos modelos residenciais que se adaptem aos novos estilos de vida.

Mais do que apontarmos descidas de atividade expectáveis, é importante que todo o universo do imobiliário se concentre na aposta em novos modelos de ação e que se reinventem modelos operacionais que contem fortemente com o potencial que as novas tecnologias oferecem, contribuindo assim para uma recuperação mais rápida e efetiva do mercado imobiliário. Seria ainda muito bom poder contar com o bom senso de instâncias mais altas, sobretudo para que não se criem entropias nem bloqueios à apetência indiscutível de investimento a que se tem assistido em Portugal, nos últimos anos.