Francisco Campilho
Francisco Campilho
Diretor Geral Adjunto da Victoria Seguros

A partilha

23/02/2022

As possibilidades oferecidas pela digitalização vieram, deste modo, contribuir para uma evolução na forma como nos relacionamos com os mais diferentes bens, passando da sua propriedade para o seu aluguer com uma acessibilidade e utilização imediata. Os serviços de streaming de música, filmes, jogos, mas também de treino físico, são o maior exemplo do sucesso da economia de partilha e de como a nossa relação com esses bens e serviços se alterou radicalmente.

No imobiliário, são vários os exemplos de formas de partilha. Desde logo o arrendamento de curta ou longa duração, mas também o time-sharing, permitem usufruir de um imóvel sem que seja necessário ter a sua propriedade. No entanto, trata-se de uma forma diferente de partilha da que atualmente assistimos. Talvez a melhor forma de mostrar essa diferença seja recorrendo a um outro exemplo, o da mobilidade. Há muito anos que existem rent-a-car, no entanto o fenómeno do car-sharing, das bicicletas e das trotinetas é diferente pela acessibilidade e forma imediata com que podem ser utilizados. A aplicação que poderá ser mais próxima no imobiliário é o co-living e o co-working. Quando estes dois conceitos se associam a clubes nacionais e internacionais de partilha, cujos membros podem utilizar as propriedades em várias cidades e países, com serviços adicionais e acedendo a partir de plataformas digitais, então estamos muito próximo da experiência de partilha dos outros bens.

Estas novas formas de habitar, de trabalhar e de nos deslocarmos acompanham claramente as tendências que já aqui abordei de deslocalização para fora das cidades ou entre cidades: não se mora necessariamente perto, ou muitas vezes, nem no mesmo país onde se trabalha. Os últimos dois anos amplificaram esta experiência de separação entre local de trabalho e de residência, tornando a experiência dos nómadas digitais acessível, ainda que por força da situação pandémica e do confinamento, a todos nós. Deixou assim de ser uma experiência exclusiva dos nómadas digitais que, no entanto, continuam a conseguir usufruir desta partilha de um modo muito mais pleno uma vez que conseguem ir variando a sua localização.

No entanto, por muito que as cidades se transformem e facilitem estas novas formas de organização da vida e do trabalho, é certo que se trata de um fenómeno circunscrito a determinadas etapas de vida, faixas etárias e profissões (essencialmente serviços e profissões liberais). A partir do momento, porventura hoje cada vez mais tardio, em que se decida por um projeto de vida familiar as necessidades habitacionais poderão tornar-se mais clássicas optando-se pelo arrendamento ou pelo crédito. Já numa fase mais avançada de vida, as soluções de co-living poderão ser cada vez mais generalizadas, reinventando as atuais residências seniores.

As cidades têm assim de se organizar e de se desenvolver por forma a responder a todas estas novas necessidades. Poderemos, por exemplo, pensar em formas de integração de todas estas etapas de vida, permitindo a transição entre estas diversas formas de habitação. O setor do investimento imobiliário, assim como as seguradoras, tem aqui um desafio para encontrar e propor soluções adequadas que facilitem o acompanhamento das necessidades habitacionais dos seus clientes ao longo das diferentes etapas do ciclo vida.