Havelar quer industrializar a construção com impressão 3D e acelerar resposta à crise da habitação

10/06/2026
Havelar quer industrializar a construção com impressão 3D e acelerar resposta à crise da habitação

A impressão 3D aplicada à construção tem sido frequentemente apontada como uma das tecnologias com potencial para ajudar a responder à escassez de habitação que o país enfrenta. A Havelar, startup portuguesa pioneira na impressão 3D, posiciona-se como uma das respostas mais concretas à crise habitacional, combinando velocidade, redução de custos e sustentabilidade.

Fundada em meados de 2023, em Vilar do Pinheiro, Vila do Conde, a empresa — criada por José Maria Ferreira (CEO), Patrick Eichiner e Rodrigo Vilas-Boas — foi a primeira equipa certificada em impressão 3D em Portugal.

Em declarações ao Público Imobiliário, José Maria Ferreira explica o posicionamento da Havelar: não pretende substituir a construção tradicional, mas complementá-la e potenciá-la através da industrialização do processo, aumentando a eficiência da resposta às necessidades habitacionais

Uma ferramenta para aumentar a oferta habitacional

Questionado sobre o contributo real da impressão 3D para resolver a crise da habitação, o CEO é pragmático: “A impressão 3D não será, por si só, a solução para a crise da habitação, mas pode ser uma ferramenta muito relevante para aumentar a capacidade produtiva do setor.”

Segundo o responsável, o principal contributo da tecnologia reside precisamente na industrialização do processo construtivo, permitindo produzir mais rapidamente, com menos desperdício e menor dependência de mão de obra especializada. “Acreditamos que, no futuro, a impressão 3D será uma tecnologia integrada de forma natural no setor da construção. Tal como hoje uma construtora dispõe de equipamentos de escavação ou gruas, acreditamos que muitas construtoras terão a sua própria impressora 3D”, refere.

Vantagens face ao método tradicional

Entre as principais vantagens da impressão 3D, o responsável destaca “a rapidez de execução, a redução da dependência de mão de obra, a diminuição do desperdício de materiais, a previsibilidade dos custos e a liberdade arquitetónica que oferece sem impactar significativamente o orçamento.”

É sobretudo na fase estrutural da obra que a diferença se torna mais evidente: “Enquanto numa construção convencional as paredes estruturais podem levar semanas a executar, através da impressão 3D podem ser produzidas em poucas horas, mantendo elevados padrões de precisão e qualidade”, sublinha.

A empresa já demonstrou essa capacidade num protótipo habitacional T2 com cerca de 90 metros quadrados, cuja estrutura foi impressa em apenas 18 horas. Em duas semanas, com a instalação da cobertura, caixilharias e restantes acabamentos essenciais, a habitação ficou pronta a ser utilizada.

Havelar2.jpg

Menos tempo de obra, maior retorno para investidores

Quanto ao impacto económico da tecnologia, José Maria Ferreira refere que os ganhos variam de projeto para projeto: “Conseguimos reduções de prazo entre 30% e 60%.”. Já ao nível dos custos, a redução direta na componente estrutural pode oscilar entre 15% e 30%, dependendo da complexidade arquitetónica e da dimensão da obra.

Ainda assim, considera que o principal benefício para promotores e investidores vai além da poupança direta dos custos de construção. “O maior benefício está na redução do tempo de execução e no chamado time to market. Quanto mais cedo um projeto é concluído, mais rapidamente pode ser comercializado, gerando receitas e reduzindo os custos financeiros associados ao investimento”, afirma.

Mercado cada vez mais recetivo

Embora seja uma tecnologia relativamente recente em Portugal, a Havelar diz estar a assistir a uma crescente abertura por parte do mercado. “Investidores, promotores imobiliários e entidades públicas procuram cada vez mais soluções que permitam maior controlo dos custos e maior previsibilidade na execução dos projetos”, aponta o CEO.

A empresa trabalha atualmente com vários segmentos de mercado, incluindo particulares, promotores, investidores institucionais e entidades públicas. Entre estas últimas, “temos encontrado uma recetividade muito significativa junto dos municípios e também junto do próprio Ministério da Habitação”, revela José Maria Ferreira, destacando o interesse destas entidades em conhecer melhor a tecnologia como uma possível resposta aos desafios da habitação acessível em Portugal.

Apesar dos avanços, ainda existem desafios associados à implementação desta tecnologia em Portugal. “A impressão 3D na construção já dispõe de soluções técnicas que permitem cumprir os requisitos exigidos pelo mercado”, refere o responsável. E adianta: “Atualmente já possuímos registos e validações ao nível térmico e acústico, assegurando o cumprimento dos padrões exigidos para a habitação moderna.”

Sustentabilidade e economia circular

A sustentabilidade é outra das áreas em que a Havelar vê potencial para diferenciar a construção aditiva. De acordo com José Maria Ferreira, “a impressão 3D permite reduzir significativamente o desperdício de materiais, minimizar resíduos em obra e diminuir a necessidade de processos construtivos auxiliares.”

A empresa procura também desenvolver novos materiais através da incorporação de resíduos industriais. Nesse âmbito, celebrou recentemente um protocolo com o Grupo Nabeiro para integrar desperdícios industriais em soluções construtivas. “Este protocolo é um excelente exemplo dessa estratégia, permitindo valorizar resíduos que anteriormente não tinham aplicação direta e integrá-los em soluções construtivas sustentáveis, promovendo uma verdadeira economia circular”, refere o CEO.

Projetos realizados em várias geografias

Entre os projetos de referência já concluídos pela Havelar, José Maria Ferreira destaca o edifício da Recircular, em Matosinhos, e 32 habitações de emergência social desenvolvidas no âmbito de um concurso promovido pela Póvoa de Varzim. “São projetos dos quais nos orgulhamos muito, não apenas pelos prazos de execução alcançados, mas também pelos materiais utilizados e pela demonstração prática da qualidade e fiabilidade desta tecnologia”, salienta o responsável.

Paralelamente, a empresa tem ainda vários projetos privados em desenvolvimento que deverão ser apresentados ao mercado durante este ano.

No plano internacional, a Havelar está atualmente envolvida em projetos no Brasil, Porto Rico, Espanha e Turquia, numa estratégia que visa reforçar a sua presença em diferentes geografias

Meta ambiciosa para os próximos anos

Para os próximos anos, a ambição da Havelar é clara: “Queremos ser a melhor empresa de impressão 3D aplicada à construção a nível mundial”, afirma José Maria Ferreira.

O objetivo passa por continuar a investir em inovação, capacidade produtiva e internacionalização, mas também por contribuir para uma transformação mais ampla do setor.

“Mais do que liderar um segmento tecnológico, queremos contribuir para transformar a forma como se constrói no mundo, tornando a habitação mais acessível, mais sustentável e mais eficiente”, conclui.