Num momento em que o papel das cidades na competitividade nacional está no centro do debate público, o Viva Offices, no Porto, recebeu uma mesa-redonda subordinada ao tema “Das cidades ao ecossistema: economia, inovação e competitividade nos novos centros empresariais”. A iniciativa, que marcou a conclusão do investimento no edifício e a sua abertura a novos inquilinos – que já ocupam quase a totalidade do espaço –, reuniu clientes, investidores e stakeholders do imobiliário empresarial.
Promovido pela Savills Portugal, em parceria com a Sonae Sierra, GFH e Cushman & Wakefield, o debate contou com António Costa e Silva, ex-ministro da Economia e professor no Instituto Superior Técnico, e Pedro Santa Clara, professor universitário, fundador do campus de Carcavelos da Nova SBE e impulsionador da Escola 42 em Portugal. A moderação esteve a cargo de Ricardo Valente, Managing Director da Savills no Porto.
As cidades foram colocadas no centro da discussão enquanto motores de inovação e concentração de talento, mas também como espaços onde se confrontam desafios ambientais, de coesão social e de produtividade. António Costa e Silva descreveu-as como “a maior invenção da humanidade”, lembrando que, apesar de ocuparem uma fração mínima do território, concentram a maior parte da atividade económica, do consumo energético e das emissões de CO₂. Defendeu a urgência de modelos baseados na economia circular e em cidades mais inteligentes.
Pedro Santa Clara destacou o talento e a qualidade de vida como grandes trunfos portugueses na atração de profissionais qualificados a nível global. Referiu o crescimento de Lisboa e Porto como hubs tecnológicos, nomeadamente nas áreas de blockchain, cripto e desenvolvimento de software para gigantes da indústria automóvel e aeroespacial, além do número crescente de unicórnios criados no país.
O ensino superior foi apontado como uma potencial “indústria exportadora” de talento. Santa Clara criticou os modelos de governação universitária tradicionais, pouco ágeis, e elogiou experiências alternativas como a Escola 42, que crescem fora dos caminhos convencionais.
No plano territorial, Costa e Silva salientou a força industrial do Norte, o potencial tecnológico do interior e a importância estratégica da economia do mar e dos dados. No entanto, identificou barreiras persistentes: uma administração pública centralista e burocrática, a escassez de habitação acessível e a reduzida dimensão média das empresas portuguesas, fatores que limitam ganhos de escala e produtividade.
O debate convergiu para o papel da tecnologia como solução transversal. A inteligência artificial foi vista como a nova infraestrutura crítica do século XXI, com impacto profundo na forma como as cidades funcionam. Apesar dos desafios, ambos os oradores mostraram otimismo: a sociedade já superou crises complexas no passado e pode voltar a fazê-lo, especialmente com maior pressão da sociedade civil.
No encerramento, Ricardo Valente sintetizou o essencial: “A cidade é hoje muito mais do que um espaço urbano. É uma verdadeira plataforma económica onde se cruzam talento, inovação, investimento, habitação, mobilidade e qualidade de vida. É também o espelho mais fiel de um país que consegue – ou não – transformar o seu modelo de desenvolvimento”.


