Portugal vai ganhar o seu primeiro Arquivo Nacional do Som (ANS), uma infraestrutura única no país, a nascer em Mafra. Projetado pelo Atelier Carvalho Araújo e financiado com quatro milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o equipamento está na fase final de construção e deverá abrir ao público no próximo semestre.
Trata-se de um marco cultural relevante que preenche uma lacuna histórica na preservação do património imaterial português. O ANS será o único espaço nacional dedicado exclusivamente à memória sonora: vozes, músicas tradicionais, paisagens sonoras e registos históricos que, até agora, se encontravam dispersos em suportes frágeis.
Abordagem inovadora vencedora de concurso
O projeto foi selecionado num concurso público lançado a 17 de janeiro de 2024. A proposta do Atelier Carvalho Araújo distinguiu-se pela qualidade arquitetónica, pela resposta técnica rigorosa e pela integração sensível num território classificado pela UNESCO.
A conceção assenta em três conceitos fundamentais: a Caixa-forte, núcleo de silêncio e proteção máxima dos acervos; a Oficina, o espaço vivo de trabalho técnico sobre o som; e a Casa, edifício que se insere harmoniosamente no tecido urbano de Mafra e “dialoga” com o Palácio Nacional.
Com esta solução, Portugal alinha com países como a Alemanha, o Reino Unido e a França, que há décadas investem em infraestruturas de preservação sonora, posicionando-se na vanguarda da salvaguarda do património áudio nacional.
Uma infraestrutura com futuro
Mais do que um edifício, o ANS constitui uma plataforma cultural de impacto alargado. Este investimento permite laboratórios de áudio modernos, depósitos seguros, oficinas de conservação, serviços educativos e áreas de gestão. Inclui capacidade de expansão e um anfiteatro exterior, reforçando o seu papel como polo de criação artística e ligação à comunidade.
A localização em Mafra, numa zona de excelência patrimonial, potencia o cruzamento entre turismo cultural e preservação. O arquivo deverá atrair investigadores internacionais e tornar-se referência no espaço lusófono, especialmente no Brasil, Angola, Moçambique e Cabo Verde.
A vertente digital é igualmente forte: o ANS facilitará a digitalização de acervos e o acesso remoto, democratizando o contacto com a memória sonora sem comprometer a segurança física dos originais.
Visão que une silêncio e som
“Em primeiro lugar o silêncio, ou a presença dos sons que não conseguimos ouvir”, explicam os arquitetos. Mais do que conservação técnica, o projeto visa transformar a herança sonora portuguesa num património vivo e acessível às gerações futuras.
A estrutura em betão robusto garante isolamento acústico máximo. A fachada ventilada em pedra branca prolonga o eixo do Palácio Nacional, enquanto a posterior, com um “véu” metálico, filtra a luz e protege os interiores. O terraço e o anfiteatro exterior reforçam o carácter aberto do equipamento e a relação com a cidade.
Um elemento simbólico distingue o edifício: um “sino contemporâneo” exterior que emitirá um breve excerto sonoro sempre que um novo registo for incorporado. Este gesto poético e pedagógico tornará audível o trabalho de preservação para quem passa na rua, transformando o ANS num ser vivo da comunidade.
Com a conclusão da obra, Mafra e Portugal ganham uma infraestrutura de referência que protege o passado sonoro e o projeta para o futuro, reforçando a identidade cultural num domínio ainda pouco explorado.


