Construção em madeira: a inovação e soluções técnicas que respondem a diferentes escalas de edifícios

28/10/2026
Construção em madeira: a inovação e soluções técnicas que respondem a diferentes escalas de edifícios
De cima para baixo e da esquerda para a direita: Andrew Waugh, Bernhard Egert, Florian Kosche, Pablo van der Lugt e Rune Abrahamsen

Promovida pela CarmoForm, a conferência Wood Giants reuniu recentemente em Lisboa especialistas internacionais ligados a projetos de referência na Europa, demonstrando que a construção em madeira ultrapassou a fase experimental e dispõe hoje de soluções técnicas para responder a diferentes escalas e tipologias de edifícios.

Deixamos os comentários dos especialistas internacionais presentes sobre a construção em madeira e a forma como está a emergir como uma alternativa viável e sustentável face à construção tradicional.

Andrew Waugh, fundador do atelier Waugh Thistleton Architects: “Precisamos colocar o carbono no centro das decisões”

A madeira deixou de ser um material experimental. Construímos com madeira há mais de vinte anos e sabemos que permite realizar edifícios seguros, duradouros e esteticamente apelativos, mesmo à escala de grandes projetos.

A minha mensagem vai além da madeira. Precisamos de construir menos, utilizar menos recursos e colocar o carbono no centro das decisões de projeto desde o início de cada intervenção. Para mim, esta é, fundamentalmente, uma questão de arquitetura: como utilizar a estrutura, os materiais e os recursos para construir edifícios melhores com menos. Isso significa questionar as práticas convencionais, avaliar aquilo que fazemos e partilhar os conhecimentos que adquirimos.

A madeira é uma das ferramentas mais poderosas de que dispomos para promover esta mudança, não apenas porque reduz as emissões de carbono, mas também porque nos pode conduzir a uma arquitetura melhor no futuro.

Bernhard Egert, responsável da UBM Development: “As construções em madeira podem permitir edifícios de grande altura”

A madeira é um material de construção com uma tradição muito longa. Quando utilizada corretamente, do ponto de vista da ciência dos materiais, pode durar séculos, como demonstram inúmeros edifícios históricos.

Os produtos de madeira estrutural de engenharia já comprovados, como a madeira lamelada cruzada (CLT) e a madeira estrutural de folheado de faia, permitem atualmente construir edifícios de dimensões e alturas muito diferentes. No entanto, o princípio fundamental mantém-se inalterado: quando utilizada corretamente, ou seja, quando protegida contra a exposição prolongada à humidade, a madeira é um material de construção extremamente robusto e de elevado desempenho, capaz de garantir a longevidade das estruturas durante séculos.

A madeira é um material combustível, mas a sua combustão apresenta características previsíveis que permitem projetar soluções seguras. A velocidade de carbonização está claramente definida e, aumentando ligeiramente a secção dos elementos estruturais, é possível alcançar resistências ao fogo de 30, 60 ou até 90 minutos.

Os modernos produtos de madeira estrutural de engenharia apresentam propriedades mecânicas impressionantes. Quando corretamente projetadas, as construções em madeira podem permitir edifícios de grande altura, com 100 metros ou mais, embora estes projetos representem o equivalente à “Liga dos Campeões” da construção.

Este segmento representa a maior parte do volume efetivo de construção, está sujeito a requisitos de segurança contra incêndios menos exigentes e oferece, por isso, o maior potencial para reduzir as emissões de carbono.

Florian Kosche, engenheiro responsável pelo desenvolvimento estrutural do Sara Kulturhus, na Suécia: “O desafio consiste agora em utilizar a madeira de forma inteligente”

A madeira não deve ser encarada como um material experimental. Projetos como o Sara Kulturhus demonstraram que a construção em madeira pode constituir uma solução corrente, mesmo à escala e com o grau de complexidade que, no passado, teriam parecido impossíveis.

Dispomos dos conhecimentos de engenharia necessários para projetar edifícios em madeira que sejam seguros, duradouros e ambiciosos. O desafio consiste agora em utilizar a madeira de forma inteligente: compreender as suas propriedades específicas, combiná-la com outros materiais sempre que isso melhore o desempenho e projetar edifícios tendo em conta a durabilidade, a adaptabilidade e a utilização eficiente dos recursos.

A sustentabilidade não consiste simplesmente em escolher madeira em vez de betão ou aço. Consiste em desenvolver o sistema estrutural mais adequado à arquitetura, ao local e aos materiais disponíveis e, em última análise, criar edifícios que as pessoas valorizem, utilizem e apreciem.

Pablo van der Lugt, especialista em materiais de base biológica: “Devemos ultrapassar os mitos associados à construção em madeira”

A minha principal mensagem, que também desenvolvo no meu mais recente livro, The Timber Truth, é que devemos ultrapassar os mitos associados à construção em madeira. A madeira estrutural de engenharia moderna permite construir edifícios seguros, duradouros e cada vez mais altos, desde que o material seja devidamente considerado no projeto e que os riscos, nomeadamente os relacionados com o fogo e a humidade, sejam corretamente geridos.

E já não estamos perante uma solução experimental, dada a dimensão que estes projetos já alcançam: a torre híbrida de madeira Atlassian Central, com 183 metros de altura, em Sydney; o centro logístico em madeira da Bestseller, nos Países Baixos, com 155.000 m2; e a Stockholm Wood City, um empreendimento com 250.000 m2, que incluirá 7.000 postos de trabalho e 2.000 habitações. Todos estes projetos estão atualmente em construção. Estamos, literalmente, a falar de gigantes da madeira!

A transição para a construção com materiais de origem biológica vai, contudo, muito além da madeira. O projeto da Bestseller combina madeira maciça com 40.900 m2 de painéis pré-fabricados de palha. Ao mesmo tempo, o bambu estrutural de engenharia constitui outra solução de elevado desempenho e de rápida renovação, que complementa a madeira na construção e nos revestimentos interiores e exteriores. Esta opção é particularmente interessante para Portugal, onde já estão a ser instaladas plantações de bambu, nomeadamente em Alcoutim.

Rune Abrahamsen, líder da equipa responsável pelo edifício Mjøstårnet, Noruega: “Adquirimos experiência na construção de estruturas robustas e climaticamente sustentáveis”

Ao longo do tempo, recolhemos ensinamentos valiosos através de numerosos projetos e conseguimos concretizar, na Noruega, projetos de construção em madeira de grande dimensão e extraordinária complexidade.

Ao longo de vários anos de inovação e de estreita colaboração entre os diferentes intervenientes de toda a cadeia de valor, adquirimos uma vasta experiência na conceção e construção de estruturas robustas e climaticamente sustentáveis.

Destaco aspetos fundamentais como a pré-fabricação, a rapidez de montagem, o processamento por controlo numérico computorizado (CNC), a segurança contra incêndios e a proteção contra as condições meteorológicas, entre outros.