A Residência de Estudantes do Avepark, em Guimarães, é um dos projetos de construção em madeira de maior dimensão em Portugal. Qual foi o principal desafio arquitetónico do edifício?
Talvez o principal desafio tenha sido o modo como o edifício se relaciona com a paisagem, a implantação de um programa bastante extenso que totaliza 5.700 m2 de área construída, num terreno com aquelas características.
Mas também, conciliar a escala e a complexidade funcional de uma residência para 177 pessoas com um sistema construtivo industrializado, baseado predominantemente na madeira, e com objetivos muito exigentes de sustentabilidade e eficiência energética.
Não estávamos apenas a projetar um edifício de alojamento. Pretendíamos demonstrar que a madeira pode ser utilizada em programas de grande dimensão, com exigências estruturais, funcionais e técnicas comparáveis às de outros sistemas construtivos.
A madeira foi uma escolha arquitetónica, construtiva ou ambiental? E que papel assume este material na estrutura do edifício?
A madeira foi, simultaneamente, uma escolha arquitetónica, construtiva e ambiental. No entanto, seria redutor encará-la apenas como uma opção de sustentabilidade ou de expressão estética. Neste projeto, a madeira é parte integrante da estratégia construtiva.
Recorremos à madeira laminada cruzada, conhecida como CLT (Cross-Laminated Timber), um sistema que permite executar elementos de parede e de pavimento com capacidade estrutural, precisão dimensional e potencial de industrialização. A sua utilização possibilita transferir uma parte significativa do processo construtivo para ambiente fabril, reduzindo a dependência de operações demoradas no local.
A escolha está também relacionada com a redução do impacto ambiental potencial da construção. A madeira é um recurso renovável quando proveniente de gestão florestal responsável e permite armazenar carbono durante a vida útil do edifício.
Que vantagens trouxe a construção modular e pré-fabricada em termos de prazos, qualidade e execução?
A principal vantagem é permitir uma maior antecipação e controlo do processo construtivo.
Quando os componentes são produzidos industrialmente, é possível trabalhar com condições de fabrico mais controladas, tolerâncias dimensionais rigorosas e procedimentos de qualidade sistemáticos. No local da obra, as operações passam a concentrar-se mais na montagem, nas ligações entre elementos e na coordenação das diferentes especialidades.
Este modelo pode reduzir o tempo de execução, diminuir desperdícios e melhorar a previsibilidade dos trabalhos.
Contudo, a pré-fabricação não elimina a complexidade: transforma-a. Uma parte importante do trabalho passa para as fases de projeto, compatibilização, produção e logística. O Avepark evidencia precisamente esta realidade.
O edifício adapta-se a um terreno com declive acentuado. Como conciliaram a construção modular com a adaptação à área e à paisagem envolvente?
A adaptação ao terreno foi uma questão central na conceção do edifício. Aquela encosta sob o “Castro de Sabroso”(importante sítio arqueológico) é um maciço rochoso, espécie de laje continua de granito, daí que o edifício se deveria apoiar no terreno, evitando ao máximo qualquer escavação.
A industrialização não deve significar que a arquitetura se torna indiferente ao lugar ou que o terreno tem de ser completamente transformado para receber um sistema construtivo normalizado.
Aqui, a geometria do edifício, organizada em forma de U, e a sua implantação foram pensadas para responder às características do terreno, incluindo os declives acentuados. A organização dos volumes e a articulação dos diferentes níveis permitem conciliar a dimensão do programa com as condições físicas do local.
A industrialização não deve produzir edifícios indiferenciados. Pelo contrário, quando bem utilizada, permite libertar recursos e concentrar o trabalho de projeto na qualidade espacial, na relação com a paisagem e na adequação do edifício às necessidades dos seus utilizadores.
Na construção em madeira, persistem dúvidas sobre segurança contra incêndios, isolamento acústico, humidade e durabilidade. Como foram respondidas estas exigências no Avepark?
Portugal enfrenta uma dificuldade grande na questão da legislação da segurança contra incêndios, em geral, e na construção em madeira, em particular.
Quanto ao isolamento acústico, é necessário controlar tanto a transmissão do som através dos elementos construtivos como a transmissão pelas ligações entre paredes, pavimentos e estrutura. Em residências estudantis, onde os quartos são espaços privados inseridos num edifício coletivo, esta questão é particularmente importante. A solução passou sempre pela utilização de sistemas e soluções homologadas capazes de cumprir as exigências regulamentares.
A humidade exige uma atenção igualmente rigorosa. A madeira deve ser protegida da exposição prolongada à água, com especial cuidado nas coberturas, fachadas, zonas de contacto com o solo e instalações sanitárias. A drenagem, a estanquidade e a possibilidade de secagem dos elementos são fundamentais para a durabilidade.
A nossa posição é clara: a construção em madeira não implica abdicar de segurança, conforto ou durabilidade. Exige, isso sim, conhecimento técnico especializado e um controlo rigoroso de todas as fases do processo.
Sendo uma residência para 177 pessoas, o projeto tem também uma dimensão social. Como é que a arquitetura pode melhorar a experiência de quem vive num alojamento estudantil, conciliando privacidade, espaços comuns, conforto e convivência?
Uma residência deste tipo deve ser muito mais do que um conjunto de quartos. É um espaço de habitação, aprendizagem, socialização e construção de autonomia.
Por essa razão, é importante encontrar um equilíbrio entre a privacidade individual e a possibilidade de partilhar experiências com outras pessoas. O estudante precisa de dispor de um espaço onde possa descansar, estudar e desenvolver a sua vida pessoal, mas também de ambientes que favoreçam o encontro, o convívio e o sentimento de pertença.
A organização dos espaços comuns é determinante. As áreas de estudo e trabalho, as zonas de convívio e os espaços de refeições devem ser acessíveis e funcionais, sem comprometer a tranquilidade das zonas de descanso.
A qualidade da luz natural, o conforto térmico e acústico, a facilidade de orientação no edifício e a relação com os espaços exteriores também influenciam a experiência quotidiana dos residentes.
Por isso, entendemos que a qualidade arquitetónica de uma residência não deve ser avaliada apenas pela eficiência com que acomoda pessoas ou seu preço por metro quadrado, mas também pela forma como contribui para a sua autonomia, bem-estar e integração numa comunidade.
A experiência de habitar espaços de maior qualidade arquitetónica terá seguramente um impacto positivo, aumentando os níveis de felicidade, saúde e bem-estar dos seus moradores que futuramente exigirão padrões de qualidade mais elevados, produzindo um impacto importante na sociedade.
O que falta para a construção industrializada em madeira ganhar escala em Portugal?
Em Portugal, existe conhecimento técnico e empresarial para desenvolver soluções de construção em madeira. O desafio passa por transformar experiências pioneiras numa prática corrente, com maior previsibilidade e capacidade de resposta.
É necessário reforçar a formação de arquitetos, engenheiros, projetistas, instaladores e empresas de construção. A industrialização exige competências específicas de coordenação, detalhe construtivo, planeamento e montagem.
Por último, precisamos de mais projetos demonstradores, acompanhados por dados objetivos sobre custos, prazos, consumo energético, manutenção e desempenho em utilização.
A escala não será alcançada apenas por se construir mais em madeira. Será alcançada quando existirem condições para repetir soluções de qualidade, melhorar os processos e reduzir os riscos de cada nova obra.
O Pitagoras Group tem desenvolvido projetos em áreas muito distintas. Quais são hoje os principais traços da identidade do atelier e o que distingue a sua abordagem à arquitetura?
Entendemos a arquitetura como uma disciplina que exige capacidade de resposta a realidades muito diferentes, sem perder a coerência entre a ideia, o espaço e a sua concretização.
Trabalhar em programas distintos implica compreender as necessidades específicas de cada cliente, os constrangimentos de cada lugar e as exigências funcionais, técnicas e económicas de cada projeto. Não acreditamos numa fórmula arquitetónica única que possa ser aplicada indistintamente a todos os contextos.
Procuramos desenvolver uma arquitetura que articule a qualidade espacial com o rigor técnico e a viabilidade construtiva. A conceção não termina na imagem do edifício: envolve a forma como este funciona, como é construído, como envelhece e como responde às necessidades dos seus utilizadores.
O Avepark representa bem a importância desta abordagem integrada. Um projeto desta natureza obriga a relacionar arquitetura, estrutura, sistemas construtivos industrializados, desempenho energético e organização funcional. Cada decisão tem consequências nas restantes dimensões do edifício.
Acreditamos também que a inovação deve ser entendida como um instrumento ao serviço da arquitetura. A tecnologia, os novos materiais e os processos digitais são importantes quando permitem melhorar a qualidade do resultado, reduzir impactos ou responder de forma mais eficaz a um problema concreto.
A nossa identidade constrói-se, assim, na procura de soluções adequadas a cada projeto, na integração das diferentes especialidades e na atenção à relação entre arquitetura, construção e utilização.
Como vê a evolução da arquitetura em Portugal nos próximos anos e que papel poderão ter a construção sustentável, a industrialização e a madeira nessa transformação?
Vemos com bastante preocupação. A desvalorização e o desrespeito pela arquitetura nos últimos 25 anos tem sido uma constante.
Além disso, a arquitetura em Portugal enfrenta um conjunto de desafios que terão um impacto profundo na forma como projetamos e construímos: a necessidade de habitação acessível, a redução das emissões de carbono, a eficiência energética, a escassez de mão de obra especializada e a necessidade de melhorar a produtividade do setor.
Neste contexto, a construção sustentável terá de deixar de ser encarada como uma dimensão complementar do projeto e passar a integrar as decisões fundamentais desde o início. Isso significa considerar o consumo de recursos, a energia incorporada nos materiais, a durabilidade, a adaptabilidade dos edifícios e as necessidades reais dos seus utilizadores.
A industrialização poderá contribuir para esta transformação através da normalização de componentes, da pré-fabricação, da digitalização e de uma maior integração entre projeto e execução. Estas ferramentas podem melhorar a previsibilidade dos custos, reduzir desperdícios e ajudar a responder à necessidade de construir com maior rapidez e qualidade.
O objetivo não deve ser apenas construir mais depressa. Deve ser construir melhor: edifícios mais eficientes, duráveis, adaptáveis e confortáveis, com menor impacto ambiental e maior capacidade de responder às transformações sociais.


