Qual é a mensagem que quis deixar aos profissionais e ao público português na sua intervenção na conferência Wood Giants?
Atualmente, cerca de 40% das emissões globais estão relacionadas com o setor da construção e, dentro deste impacto, os materiais de construção têm um peso muito significativo. Ao mesmo tempo, nas próximas duas décadas, a maioria da população mundial viverá em cidades. Perante este cenário, torna-se fundamental procurar alternativas mais sustentáveis para a construção.
A madeira é uma dessas alternativas, mas não é a única. De uma forma mais abrangente, devemos olhar para os materiais biogénicos – materiais de origem natural capazes de armazenar carbono – e repensar a forma como projetamos e construímos, de uma maneira muito mais consciente dos recursos que temos à nossa disposição e que, como sabemos, não são infinitos.
Os projetos apresentados na conferência são muito distintos. No entanto, todos partilham a mesma ambição: reduzir a pegada carbónica na construção e, simultaneamente, criar uma arquitetura com uma forte identidade, que se relaciona com o seu contexto natural de uma forma sensível e ponderada.
Estamos, no fundo, perante uma mudança de paradigma: passar de uma arquitetura que procura apenas minimizar o seu impacto para uma arquitetura que contribua ativamente para a qualidade dos espaços urbanos e para o desenvolvimento sustentável das nossas cidades.
O que é necessário para que o setor da construção e do imobiliário e as entidades nacionais encarem a construção em madeira como uma das respostas aos desafios da descarbonização?
No contexto português, penso que temos uma oportunidade para repensar a forma como construímos e reabilitamos as nossas cidades.
A crise habitacional com que nos deparamos atualmente obriga-nos a encontrar formas de aumentar a oferta de habitação, e aqui a madeira pode ter um papel decisivo. Na reabilitação, permite-nos aumentar a densidade urbana, acrescentando metros quadrados à construção existente. Por permitir processos construtivos mais rápidos, pode também contribuir para acelerar a construção de nova habitação.
Ao mesmo tempo, estamos a falar de um material de origem biogénica, capaz de armazenar carbono. Portanto, podemos responder simultaneamente a dois grandes desafios: a necessidade de habitação e a necessidade urgente de reduzir as emissões associadas à construção.
As políticas públicas podem ter um papel muito importante neste processo. Temos exemplos na Europa que o demonstram: países como a França e a Dinamarca começaram, há alguns anos, a introduzir critérios para minimizar o carbono incorporado. Em França, os edifícios públicos têm de ser construídos com, pelo menos, 50% de madeira ou outros materiais biogénicos. Esta medida, entre outras, impulsionou o mercado da construção em madeira e estimulou a inovação na própria indústria.
Portugal deveria olhar para essas experiências e introduzir regulamentação e políticas semelhantes, ajustadas à realidade nacional. Se queremos realmente descarbonizar a construção, não podemos depender apenas da vontade de alguns arquitetos ou promotores. Precisamos de regras claras, metas concretas e regulamentação que valorize os materiais de baixo carbono.

World of Volvo, em Gotemburgo
O seu projeto World of Volvo, em Gotemburgo, demonstra as possibilidades da madeira na construção, mas distingue-se também pelas suas qualidades arquitetónicas?
O World of Volvo é um edifício cultural dedicado à marca automóvel sueca, localizado no centro de Gotemburgo, que abriu portas em 2024. O projeto apresenta uma geometria circular e uma grande abertura para a paisagem, enquanto três grandes estruturas de madeira evocam a presença de árvores, suportando a cobertura como uma espécie de copa.
Esta relação com a natureza está ligada ao conceito sueco de Allemansrätten, o direito de acesso e circulação livre na natureza, que esteve na origem do conceito do edifício.
A minha visão é que devemos tirar partido das características específicas da madeira: a sua leveza, a possibilidade de pré-fabricação, a precisão, a textura, a escala dos elementos e a sua relação com a natureza.
O World of Volvo é um exemplo disso: uma combinação entre uma linguagem orgânica e única, concebida para as pessoas e para a cidade, e um processo de conceção, engenharia e pré-fabricação altamente digital, que nos permitiu inovar e alcançar as novas metas de sustentabilidade.
Os seus trabalhos recentes incluem um grande projeto residencial em madeira em Portugal, no qual explora o potencial deste material na habitação contemporânea, e o campus do CERN, em Genebra, atualmente em construção. Que desafios e oportunidades representam estes projetos?
O projeto residencial em Portugal tem um potencial muito grande, porque permite levar a construção em madeira para uma escala mais quotidiana. A questão passa por perceber como a madeira pode contribuir para uma nova geração de habitação contemporânea, combinando eficiência construtiva e descarbonização, qualidade dos espaços criados e uma relação única entre arquitetura, paisagem e bem-estar.
É também importante que o diálogo sobre sustentabilidade não fique limitado a edifícios excecionais. Se queremos realmente transformar o setor, precisamos de explorar estas soluções em tipologias que possam ser replicadas e ampliadas à escala e que façam parte da vida quotidiana.
O projeto para o CERN, a Organização Europeia para a Investigação Nuclear, combina escritórios, laboratórios e oficinas numa nova centralidade no campus de Prévessin, em França, junto à fronteira franco-suíça. Concebido como uma nova porta de entrada para este polo internacional de investigação científica, o edifício procura ir além da imagem industrial e funcional dos espaços de laboratório, propondo um ambiente de trabalho mais aberto, colaborativo e integrado na natureza.
A estrutura de madeira foi pensada para permitir a desmontagem e a reutilização dos seus componentes, contribuindo para uma abordagem mais circular à construção.
Este é o primeiro edifício em madeira do CERN, que planeia reabilitar o seu vasto património edificado. A meu ver, esta iniciativa demonstra que a mudança de paradigma na construção não se limita ao Norte da Europa.
Se fosse possível imaginar a realidade construída dentro de uma ou duas décadas, que papel gostaria que a madeira e a construção sustentável assumissem no mundo?
Nos próximos 10 ou 20 anos, espero que a pegada carbónica tenha, nas decisões de projeto, tanta importância como o custo, o programa ou a estrutura.
Na Henning Larsen, falamos cada vez mais de uma mudança de footprint – não apenas de reduzir o impacto de um edifício individual, mas de repensar os processos que estão na origem da construção.
Por isso, gostaria que, daqui a duas décadas, a madeira e outros materiais biogénicos fossem ferramentas, entre muitas outras, para criar uma arquitetura de baixo carbono, circular e profundamente ligada ao lugar.
E, acima de tudo, gostaria que a sustentabilidade não fosse vista como uma limitação à arquitetura. O desafio é exatamente o contrário: usar estas novas restrições para criar uma arquitetura mais inteligente, mais humana e mais responsável.


