Durante muito tempo, a sustentabilidade entrou nos projetos numa fase tardia, sob a forma de certificação ou argumento de venda. Mas a avaliação de um edifício começa cada vez mais cedo e vai além da sua imagem. Como se comporta termicamente? Que materiais incorpora? Que recursos consome e que impacto tem no território? Para quem investe, estas questões são também uma forma de avaliar a qualidade, a competitividade e a capacidade de valorização futura de um ativo.
É neste cruzamento entre Arquitetura, investigação e desempenho que trabalha o gabinete de arquitetura hori-zonte, com sede no Porto e escritório em Lisboa. Com mais de uma década de experiência, desenvolve projetos em Portugal e noutros mercados, incluindo Espanha, Letónia, Macau e Brasil. A sua atividade cruza a arquitetura, planeamento urbano e investigação bioclimática, abrangendo diferentes escalas de intervenção, do desenho urbano a edifícios residenciais, hoteleiros, culturais e de serviços. Com raízes familiares e uma nova geração de arquitetos, o gabinete tem vindo a afirmar o seu trabalho através de projetos distinguidos e nomeações, incluindo o reconhecimento no prémio 40 Under 40, promovido pelo European Centre for Architecture, Art, Design and Urban Studies e pelo Chicago Athenaeum.
Investigação e desempenho desde a fase de projeto
O departamento de investigação e desenvolvimento do gabinete, o Hori-lab, aprofunda esta leitura e integra-a nas decisões de projeto. Estudos bioclimáticos, estratégias passivas e avaliação do ciclo de vida permitem fundamentar opções e comparar soluções desde as primeiras fases. Desenvolvido em colaboração com universidades, indústria e especialistas, este trabalho deu origem a ferramentas próprias, como o Lighthouse for Sustainability, um guia que organiza métricas e indicadores em cinco domínios: saúde e bem-estar, ciclo de vida total, fluxo de materiais, natureza e impacto social. A colaboração com parceiros industriais permite ainda traduzir a investigação em novos sistemas e componentes construtivos. A tecnologia torna-se, assim, um instrumento para um pensamento mais informado.

Edifício da Rua Padre Luís Cabral, concluído em 2026 | Foto: Francisco Nogueira
Da habitação ao desenho urbano: a sustentabilidade aplicada
Os projetos mostram como esta abordagem se traduz em obra. Em Vila Nova de Gaia, o edifício residencial Macau Valley, concluído em 2025 para a JMSA, demonstra como uma condicionante do terreno pode tornar-se uma oportunidade de projeto. Com 30 apartamentos, de T1 a T3, o edifício ocupa um lote marcado por uma diferença de três pisos entre as ruas que o delimitam. Em vez de tratar a inclinação como limitação, o projeto integrou-a: a base funde-se com o terreno, reduzindo a escavação, e o volume sobe em socalcos.
Face a um projeto convencional, maximiza a área vendável e favorece a luz natural, a ventilação e as vistas, com terraços amplos nos pisos inferiores e varandas mais esguias nos superiores, o que distribui o valor pelo edifício em vez de o concentrar no topo. Os apartamentos são amplos, com elevado conforto térmico, acústico e visual. A análise de ciclo de vida, feita com a Dosta Tec, apurou 481 kgCO₂e/m², abaixo da média europeia (600) e do limiar de referência do índice ambiental do Porto (700). Macau Valley II, que se encontra em fase de obra, completa o conjunto.
No Porto, o edifício da Rua Padre Luís Cabral, concluído em 2026, mostra como esta lógica se aplica a outra escala. Com 870 metros quadrados de área de construção, distribui-se por três pisos de habitação multifamiliar, com um apartamento por piso. Cada habitação dispõe de duas fachadas opostas: a sala orienta-se a sul, com grandes vãos envidraçados para a rua, enquanto os quartos se voltam para um pátio interior mais resguardado. Esta organização favorece a ventilação cruzada, a entrada de luz natural e os ganhos solares, integrando a resposta ambiental na configuração do edifício e reduzindo a dependência de sistemas mecânicos.
Numa escala mais ampla, o projeto habitacional na Rua Azevedo Magalhães, em Gaia, estende esta abordagem ao desenho urbano. Com 15.700 m² e 142 apartamentos previstos, a proposta articula a implantação dos edifícios com a topografia e a envolvente, procurando abrir vistas sobre o rio Douro. A disposição dos volumes compactos liberta espaço para um parque público, pensado como lugar de encontro e lazer, mas também como infraestrutura ecológica, capaz de reter água e aumentar a biodiversidade urbana. As coberturas ajardinadas e as varandas amplas prolongam a presença da natureza nas habitações. A construção industrializada permite otimizar o uso de materiais, reduzir o tempo de obra e limitar os resíduos e os impactos associados ao estaleiro, contribuindo para diminuir a pegada carbónica do processo construtivo. A maior precisão de execução favorece também a qualidade e o controlo da construção. O objetivo é conciliar densidade habitacional, eficiência construtiva e qualidade do espaço coletivo, criando um bairro mais verde e integrado na cidade.
Desempenho ambiental e criação de valor
Os três exemplos ilustram uma mesma preocupação: relacionar as decisões arquitetónicas com o desempenho e a experiência de utilização dos edifícios. A sustentabilidade não garante, por si só, uma valorização financeira, mas pode contribuir para ativos mais eficientes, confortáveis e diferenciados, com maior capacidade de responder às exigências futuras. Para isso, o momento decisivo é frequentemente aquele em que o projeto ainda está em aberto, quando a implantação, o programa, os materiais e as soluções construtivas podem ser avaliados em conjunto.
É nesta fase que a arquitetura pode ter maior influência sobre o resultado final. A investigação procura transformar essa capacidade de antecipação numa prática de projeto. “From Vision to Regeneration” sintetiza essa ambição: desenhar edifícios e lugares que conciliem qualidade, responsabilidade ambiental e valor duradouro.


